As ruas também choram

Saudades, saudades das lindas ruas da minha mocidade, como era linda a Rua da Consolação nos anos 50, lindas árvores, pouco trânsito, os moradores todo os dias ficavam sentados nas portas das suas casas batendo aquele papo gostoso; passava os vendedores de frango, peixeiros, os amoladores de facas, o vendedor de algodão doce. Nós crianças sempre correndo e brincando pela rua, era a rua da felicidade.

Tínhamos também a Alameda Santos, Bela Cintra, Haddock Lobo, onde morava o resto dos amiguinhos; a noite era uma festa, os pipoqueiros, vendendo suas deliciosas pipocas, as ruas sempre bem iluminadas. Os meus irmãos e seus amigos ficavam na porta do bar do Sr. Alípio conversando e contando piadas, eram gargalhadas gerais. Éramos todos muito felizes, a violência não existia. Íamos paquerar no Parque Trianon. Ficávamos passeando a noite pela Av. Paulista, Conjunto Nacional, e terminávamos na inesquecível e linda Rua Augusta.

Nos fins de semana, íamos passear pelo Centro da cidade, ver os lindos luminosos nas placas de propaganda. Andar pela linda Rua Barão de Itapetininga, onde tinha a famosa paquera, as moças ficavam andando de um lado para o outro e nós, rapazes, ficávamos na esquina a espera de um sorriso; as matinês de domingo, nos cines Marabá, Ipiranga, Ritz São João.

Eu sentia que todas as ruas eram alegres, tanto nos bairros como no Centro da cidade. Quando era o tempo das festas juninas, as ruas ficavam todas enfeitadas com as bandeirinhas de papel de seda coloridos. Nós éramos tão felizes que as pessoas eram todas bonitas, não existia gente feia, éramos jovens felizes. Mas, o tempo passou, as ruas e as avenidas foram alargadas para o trânsito e as construções de edifícios, o progresso estava chegando, os cinemas deram lugar às igrejas evangélicas, as lindas casinhas da nossa infância foram derrubadas. A idade foi chegando, os amigos foram casando, nós fomos mudando de local. Estive a poucos dias nas ruas em que eu citei no começo do texto. Ruas escuras e tristes. Eu compreendi que as ruas também choram.

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