Quando vim para São Paulo, em 55, o bonde percorria o canteiro central, arborizado, da Av. Paulista. Bastante diferente, portanto, do quadro que temos agora.
Ainda se viam, dos dois lados, os famosos casarões dos barões do café e novos industriais, com seus grandes jardins e frondosos quintais.
Mas o mais impressionante para mim, era a aproximação do Parque Trianon, chamado oficialmente Siqueira Campos. Isto devido à bela colunata neo-clássica que lhe cercava a frente, com as pérgolas conduzindo, nos dois extremos, a coretos, também em mármore branco, contendo em seu interior belas e provocantes estátuas de ninfas nuas.
Para mim, adolescente criado num rígido sistema católico, de certa forma aquelas belas figuras representavam o pecado, o sexo e, talvez, o mal, tão apregoado pelos padres. E mais, evocavam bacanais na velha Grécia, com as florestas cheias de ninfas e sátiros em eternas orgias.
Não podia deixar de ficar perturbado, com a força do despertar dos crescentes instintos naturais. E assim mesmo, jamais desci do bonde para visitar aquelas beldades, nem entrei no parque a não ser anos depois. Coisas de que, mais tarde, viria me arrepender.
Porque, nestas alturas, a colunata havia desaparecido. E as belas deusas gregas também. Sem razão nenhuma, como tanta destruição estúpida em São Paulo. Eu, já iniciado nas maravilhas do universo feminino, teria adorado apreciar aquelas curvas sensuais, sua estranha beleza barroca.
Mas também penso que tais divas foram feitas para uma época mais amena, e hoje seriam presas de pichação e vandalismo.
Que destino tiveram essas minhas precoces musas? A destruição total, ou foram confinadas a um mundo subterrâneo, o das estátuas perdidas de São Paulo, de onde serão descobertas séculos mais tarde, e voltarão à luz, sob o espanto dos escavadores?
Eu não estarei mais aqui para observar esse incrível espetáculo, e restará minha dívida, irredimível, de prestar tal homenagem a essas ninfas.