Meus irmãos já estavam morando em São Paulo e eu terminava meus estudos no interior com papai.
Férias escolares, ele me trouxe a São Paulo para que eu pudesse desfrutar da companhia de meus irmãos.
Chegamos na rodoviária (ainda era na Duque de Caxias), pegamos um táxi e seguimos sentido Av. Angélica para depois entrarmos na Rua Jaguaribe, rumo a Rua Fortunato.
No cruzamento da Av. Angélica com a General Olímpio da Silveira, o semáforo estava aberto e o táxi prosseguiu.
Papai sentava-se atrás do motorista e eu ao lado dele. Ouvi um estrondo horroroso e sem entender nada, atordoada, fui percebendo aos poucos que o táxi foi atingido do lado esquerdo por um caminhão que vinha pela General Olímpio.
Uma dor na perna e nada mais. Ao contrário, papai ao meu lado, estava já ensangüentado.
Tudo muito rápido, tiram-no do carro e eu ainda zonza saio pra ver exatamente o que estava acontecendo.
Quando me dei conta já haviam levado papai em outro carro rumo ao hospital.
Completamente aturdida, numa cidade que ainda não conhecia bem, sozinha no meio da avenida, não sabia qual atitude tomar… estava desesperada. Foi o momento em que, pela primeira vez, senti a sensação de abandono. Terrível.
Alguém que estava por lá disse:
– Venha comigo, sei onde levaram seu pai. Fui! Sem saber ao menos quem estava me levando mas só sabia pensar no meu pai.
Chegando no hospital (felizmente já apaguei da minha memória onde era) esperei um bom tempo para ver papai, mas tinham me adiantado que ele estava bem e que estavam fazendo uma sutura em sua cabeça. Cabeça!… que perigo.
Liguei para minha irmã explicando o que havia acontecido, no meio de lágrimas e terror.
Depois de alguns longos minutos trouxeram papai numa cadeira de rodas. Ele estava com a camisa toda manchada de sangue e aquela cena ficou gravada eternamente na minha memória. Foram muitas lágrimas de alívio e desespero.
Ficou no hospital por uns dias em observação e eu, bem, comigo felizmente não aconteceu nada. Hematoma na perna, inchaço e nada mais.
Até hoje, quase quarenta anos depois, quando o carro em que estou passa por um cruzamento, sinto medo.