Não sei por que eu era vidrado em Istas. Fui piadista, futebolista, ciclista, lambretista, editorialista e radialista. Na minha lista estava faltando mais um Ista. Sindicalista. Em novembro de 1960, fui aconselhado por um amigo meu a entrar para o sindicato. Segundo ele eu teria a garantia de ter meus direitos defendidos por um órgão que mediante uma mensalidade me defenderia de qualquer problema que por ventura viesse a ter na firma. Disse-me também que os sindicatos eram órgãos de vagabundagem explícitas, que entrando para a diretoria estaria com o burro na sombra para o resto da vida, pois ali eu me aposentaria sem fazer muita força. Depois de 15 anos de mensalidades pagas fui convidado a fazer parte da comissão de salário, devido um dia ter ocupado a tribuna numa reunião ordinária em que eram debatidos vários assuntos da categoria. Como bom taurino (vide Carlos Lacerda) tenho uma oratória que pessoas gostam. Mas ai, já estávamos em tempos de ditadura. Castelo Branco era o presidente e ainda a coisa não estava muito fechada, pois ele era o fiador da volta a democracia. Dois anos depois seu posto estava ocupado por Arthur da Costa e Silva (que a gente carinhosamente o chamava de Costinha) Era um tempo que o governo dava cartas e jogava de mão. Mas ainda tinha uma pequena abertura para negociação. Havendo acordo entre os sindicatos patronais e do operariado, ele (o governo) ratificava. Não havendo acordo, ia para o dissídio, que naquele ano era um castigo de 21,75 % e a inflação anual era de 30 % isso segundo o governo, pois era muito mais. Desde os anos 1940, todos os sindicatos se baseavam no pedido dos metalúrgicos para reivindicar. Pediam alto para depois dar uma baixada no porcentual. Mas naquele ano não dava para fazer esse tipo de brincadeira. Os metalúrgicos cismaram de fazer um braço de ferro com o governo, pediram 64 %, nós não embarcamos nessa. Fomos para a mesa de negociação, no TRT (tribunal regional do trabalho) na Rua Martin Fontes, e a coisa não andava. Íamos para as reuniões que eram permanentes para saber o que a categoria, alguns gatos pingados representando milhares de marceneiros. Como sempre na totalidade dos presentes os velhos, não só como sindicalizados como em idade também. Sempre radicalizando como era praxe a maioria que comparecia der de oposição. Era uma briga dupla. Na no tribunal com o patronato e no sindicato com a velharia radical. No último dia para que todos os sindicatos com data base em Novembro se decidissem. Fomos para a última mesa de negociação. Um representante do sindicato das serrarias jovem e inexperiente deu uma grande mancada, e eu fui com tudo falando alto. Esse jovem disse que até que eles (os patrões) poderiam dar o aumento que pedíamos. Mas o governo não daria. Pegando nessa tese conseguimos fazer um acordo de 32%. Agora faltava os colegas no sindicato ratificar. Nós da comissão de salário sabíamos que era a tarefa mais difícil. Ali coisa realmente esquentou. Fui à tribuna com o intuito de chutar o pau da barraca. Falei alto. Fui bravo. Falei palavrões e coisas que não devia falar, pois comprometeria tudo o que tinha alcançado. O presidente do sindicato fingindo que ia tomar água no filtro que estava ao lado cochichou: Cuidado tem "rato" na sala. Ai maneirei. Mas senti que dois velhos, que chamei de parasitas e velhacos, estavam com cara de dar medo. Terminei meu discurso dizendo: Ou aceitamos 32 % ou teremos 21,75%. Ouve palmas quase que geral. Na votação praticamente todas as mãos estavam levantadas concordando. Mas não escapei da sanha dos velhos (velhacos) que queriam me agredir. Só não conseguindo porque foram seguros. A reunião dos metalúrgicos que era na Rua do Carmo, ia começar as 20,30 hs. O nosso presidente Antonio di Chiachio, nomeou eu e o companheiro Joel para representar nosso sindicato na assembléia dos metalúrgicos. Fomos alojados por Joaquinzão, (Joaquim dos Santos Andrade) em cima do palco próximo ao cortinado, pois o salão estava super lotado. O ambiente bastante tenso, pois a luta pelo poder no sindicato estava maior do que o aumento que eles Pretendiam. A assembléia presidida por Joaquinzão, era interrompida com palavras de ordem da oposição. Joaquinzão, filho da puta, pelego, sem vergonha, puxa saco dos milicos e outra coisinhas mais. Quando foi dito que o governo jamais iria aceitar aquele pedido esdrúxulo que fora aprovado pela imposição da oposição, ai a coisa pegou. Uma garrafa foi jogada na mesa e os defensores do presidente entraram em luta corporal. A coisa ferveu. Fiquei nervoso e com medo. Pois voava cadeiras pedaços de paus que passavam raspando a gente. Quando a polícia com muito custo conseguiu acalmar os ânimos a seção foi encerrada, sem mesmo começar. Advinham o que aconteceu. Foram castigados. Pela primeira vez na vida nosso sindicato levou a melhor sobre o sindicato dos metalúrgicos em termos de aumento.