Andei de bonde… e você?

Quem nasceu depois de 1968 não conheceu o famoso bonde na cidade de São Paulo. Foi nesse ano que o prefeito da época, José Vicente Faria Lima, fez a ultima viagem de bonde na cidade de São Paulo. Foi no bonde que passava pela avenida Ibirapuera, em direção a Santo Amaro.
Depois dessa viagem o bonde foi para o museu. Eu mesmo muitas vezes quando vinha da escola lá do Brás em direção a minha casa, tomava esse bonde. Não era um percurso favoravel a mim, pois tinha o ônibus 152 Vila Olímpia que me deixava bem perto da minha casa. Era a vontade de andar de bonde. Pegava ele no largo 7 de Setembro (Liberdade) e vinha embora. Essa linha era o chamado bonde camarão, ou seja, aquele bonde fechado, diferente dos bondes abertos com estribo que a gente descia sempre que o cobrador se aproximava para cobrar. No bonde que ia para Santo Amaro, eu descia na Vila Helena, em frente a Fiação Indiana, (fabrica de tecidos, hoje Shopping Ibirapuera)
Pegava a avenida Pavão ou a dos Eucaliptos, e ia a pé até a Vila Olímpia. Coisa de dois quilometros, como tinha muitos terrenos baldios, era quase linha reta. Mas os bondes que saiam da praça Clóvis Bevilaqua (hoje fundida a praça da Sé) em direção a zona leste é que me deixou com saudade. Pois em 3 anos de escola Senai, Roberto Simonsem, eu me deliciava nos bondes. Muita alegria, muito respeito para com os mais velhos. O lugar era sempre deles. Um tempo que havia um pouco de educação. Mas o gostoso era ficar no estribo do bonde e descer com ele andando. Isso eu fazia sempre na rua do Gazometro (Brás) quando ele virava da rua Vasco da Gama. Certa vez demorei a descer e ele já estava embalando. Estava no bonde que tinha reboque no vagão da frente. Não deu para se equilibrar e fui rolando no chão. Cadernos esvoaçando, e gritos de motoristas xingando a minha Mãe, com o estridente barulho dos breques. Nada de mais aconteceu comigo. um arranhão sequer. Dona Filomena, do alto dos céus me ajudou. Na certa. Quando da aproximação dos cobradores a gente descia e ia para trás ou para frente sempre se desviando deles. Mas fazíamos isso porque eles roubavam muito a CMTC. A cada três passagens cobradas eles puxavam duas vezes a cordinha que fazia o hoje Plim Plim da globo, indicando que a passagem estava sendo contabilizada. Só que eles, os cobradores em sua maioria Portugueses, recebiam três passagens, e puxavam só duas vezes a cordinha. Naquela tese italiana. Duê per mi, uno per ti. O bonde era o recanto de boas piadas entre a Avenida Rangel Pestana e a Praça da Sé. Mas naqueles dia atribulado do suicídio de Getulio Vargas, fomos dispensados das aulas, o bonde ficava lotado de estudantes. Que tinham em mente a recomendação de ir para casa e evitar ficar pelo caminho, pois fanáticos Getulistas estavam nervosos e revoltados. No ano seguinte outra crise. O presidente Café Filho foi afastado por uma "doença" e em seu lugar entrou o presidente da câmara federal Carlos Luz, que juntamente com Carlos Lacerda não queriam deixar Juscelino Kubitschek tomar posse. Foi quando o ministro da guerra, Marechal Lott, entrou em ação e pos um ponto final naquela historia. Outra crise. Fomos dispensados às 15 horas, daquele 11 de Novembro de 1955, com a recomendação de ir para casa direto sem parar em lugar algum. Mas quando o bonde parou em frente ao quartel do exército no parque Don Pedro II, foi à festa. Ninguém se lembrou de que não era para ficar no meio do caminho. Os militares estavam juntamente com os praças fazendo trincheiras no gramado do parque Dom Pedro, a beira do Rio Tamanduatei. Foi aquela farra. Era uma coisa que ninguém tinha visto. Perguntas e mais perguntas eram feitas aos oficiais militares. Coisa que eles até gostaram. Riam, com a coisas que ouviam dos curiosos estudantes. Mas quando um pracinha deixou de cavar a terra, um gaiato estudante gritou: O baiano, cava a terra aí pomba. O soldado do exército ficou bravo, não por ser advertido por não cavar a terra. Mas por ser chamado de baiano. Aí o oficial expulsou todos nós de lá, e quando outro bonde vinha passando quase vazio ficou abarrotado de estudantes, cantando:
Vocês sabem de onde eu venho. Eu venho do morro do engenho. Porém se a pátria amada, precisar da Baianada, p… m… que facada!
O motorneiro morria de rir, coisa que ele estava acostumado a ver diariamente, quando daquele horário em que o bonde era praticamente propriedade dos estudantes do Brás. Todos nós descíamos do bonde um pouco antes da praça Clovis, ali na rua Irmã Simpliciana, ele já sabendo disso, ali dava uma breve parada, mesmo não sendo ponto para isso.
Hoje se você quer andar de bonde, e saber como ele é, pode ir na Mooca. No museu dos imigrantes, dar uma volta no quarteirão. Ou então ir a Santos e participar da volta de bonde pelo centro histórico de Santos. Lá por uns, três quilômetros você vai andar de BONDE.

Escreveu Mário Lopomo (o amigo da historia)