Andanças

Uma das grandes paixões que guardo na alma é passear pelo centro de São Paulo. Desde jovem, eu tinha uma apreciação muito grande por esse espaço tão inundado de história, conhecimento e também perdas e desilusões.

Nada mais fascinante que passar pelo Centro Velho sem pressa. Sim, é preciso esquecer propositalmente o relógio. Mas eu só consegui essa façanha junto com a despreocupação quando saí da minha cidade. Pude escolher voltar para São Paulo em uma outra redação da história, escolhendo os horários para minimizar os horários de pico no trânsito, evitar a garoa que não há mais… Enfim, tentar vivenciar uma cidade na profundeza dos detalhes e suas riquezas. Resolvi voltar como turista, uma visitante saudosa e apaixonada, valorizando as raízes, os antepassados, o sofrimento daqueles que abriram espaços a unha, na tensa convivência com os nativos e acolhendo os novos chegados.

Com poesia enxergo o Pateo do Collegio. No passado, cercado por marmeleiros, tento respirar a presença dos jesuítas. Eu bem que gostaria que tivesse sido uma doce presença! Lentamente, caminho em direção ao Mercadão, apreciando as falas, os olhares, rostos carregados de suor e uns tantos semblantes machucados. Costas doloridas pelas tantas caixas carregadas. Frutas exóticas, exuberantes, fantásticas como a vida dos milhares que produzem para aquele comércio.

E ando, respiro, consigo parar em um canto perto da parede para olhar mais. Compro figada de Minas, o damasco turco, a goma síria, me encanto com os azeites pendurados e continuo caminhando em direção à Igreja São Bento. O Canto Gregoriano inebria mergulhado na sua proposta de introspecção e meditação. O canto oficial da Igreja, estabelecido pelo Papa Gregório Magno, no século VI também nos convida a muitas reflexões. Da porta da igreja, o metrô, na sua modernidade e eficiência, nos acolhe e, na pressa, nos leva a outros destinos. Mas antes, uma passada pelo viaduto Santa Ifigênia. Impossível passar por ali e não pensar no Adoniran, até visualizar compositor do Trem das Onze, na sua poesia popular rebuscada de um português dos cortiços do Bixiga, do Brás, da Barra Funda, repleta de lirismo com uma alma caipira e italiana. “Tutti mezzo a mezzo…”

Com amor visceral pela cidade, com encanto contido no coração, pelo orgulho de pertencer a uma cidade tão cosmopolita e vibrante, aprendi que, como turista, é boa a caminhada com brilho no olhar, coragem para aprender mais, alegria imensa pelo contato, ousadia para não ter vergonha de perguntar, disponibilidade para visitar a Liberdade com olhar ocidental, comer uma empadinha na padaria Santa Tereza vinda das mãos atenciosas do Sr. Pedroza, visitar atentamente o Sebo do Messias, marcar presença na Catedral, caminhar pela histórica Paulista… mas de roupas velhas. Não a sendo atrativo para os desvalidos.

Caminho pela cidade com roupas e sandálias gastas pelo tempo, por outras andanças poéticas e profundas, sempre à procura. Não quero ser vítima de nenhuma pessoa que não teve o direito de ser. Não quero perder a poesia pelo susto. Quero compreender, viver intensamente, vibrar, cooperar com tudo o que puder, mas sem perder o encanto.