O ano era 1977, tempo quente, o governo era militar, mas minha história é outra.
Tinha acabado de completar 14 anos de idade.
Em casa o sistema era esse, quem completasse 14 anos de idade, já iria tirar a certeira profissional e procurar o primeiro emprego.
Meu primeiro emprego foi em uma fábrica de arames do grupo Votorantim, que ficava na Vila dos Remédios, próximo à Vila Leopoldina, e tinha um escritório em um edifício na Praça Ramos de Azevedo, no centro de São Paulo.
Foi assim que comecei a conhecer São Paulo. A São Paulo dos anos 70.
Pegava o ônibus Praça Ramos, que passava ali na Vila dos Remédios, e descia na Praça Ramos.
Eu era um office boy, ou mensageiro.
Às vezes, eu ia de trem, e descia na Estação final Júlio Prestes.
Então ia a pé até a Praça Ramos.
Caminhava sempre pela Av. Ipiranga, e mais à frente, entrava na Av. São João.
Às vezes ia de manhã e às vezes à tarde.
As vezes que eu ia de manhã, chegava na Av. São João e de longe já sentia o cheirinho daquele churrasco Grego, muito conhecido em São Paulo, que ficava na porta da galeria. Que hoje se conhece como a Galeria do Rock.
Churrasquinho muito saboroso e cheiroso, mas que até hoje, não sei que tipo de carne ele usava.
Só sei que eu comia todo dia e ainda ganhava um suquinho, tudo por Cr$ 1 (um cruzeiro).
Acabava de comer, ainda tinha que caminhar mais um pouco até chegar à Praça Ramos.
Às vezes, eu ia por dentro da Galeria do Rock, e saía na 24 de Maio, em frente ao Teatro Municipal.
Às vezes, eu ia por baixo, e saia por trás do Teatro, já na porta do edifício Votorantim, onde ficava o escritório da fábrica em que eu trabalhava.
Já com os documentos entregues no escritório, agora era só alegria.
Pois tinha que fazer os bancos, mas não era assaltar não, era fazer os pagamentos das faturas da empresa e os depósitos.
Eu gostava desse serviço, pois eu tinha a chance de ficar andando e conhecendo as ruas de São Paulo.
Então, foi onde conheci o quanto São Paulo é grande e bonita.
Viaduto do chá, Rua direita, Praça da Sé.
Praça do Colégio, 15 de Novembro.
Sete de Abril, 24 de Maio, Rua Aurora, Rua Vitória, etc.
Adorava ver os artistas de rua, mágicos eram os preferidos.
Tinha até a casa dos mágicos, que ficava na Praça da Sé, onde você poderia comprar diversos apetrechos para mágico.
Acabando o serviço, era hora de andar por São Paulo e conhecer lojas e suas ofertas.
Calça Lee, Lewis, Cocotinha, gritava o rapaz na entrada da 24 de maio, era hilário. Sempre, ele estava ali.
Em uma travessa da Av. São Luiz com a Praça Ramos, tinha um guarda de trânsito muito engraçado. Todos paravam para vê-lo trabalhando.
Era um malabarista do apito. Seu nome. "Guarda Luizinho".
Se você atravessasse a rua fora da faixa, ele pegava na sua mão e te levava até o outro lado da rua.
Muitas vezes ele fazia você passar por dentro de um carro. Ele sempre mostrava uma caveirinha de plástico.
Ele dizia que aquele era o fim de uma pessoa que atravessasse fora da faixa, ou em um farol vermelho.
Eu me divertia muito com ele.
São muitas as memórias de São Paulo dos anos 70.
Na época de natal, adorava passear pelo Mappin, era toda enfeitada, um magazine enorme que hoje só ficou na lembrança.
Foi onde eu comprei meu primeiro aparelho de som Sharp.
Muitas vezes quando já estava indo embora, pegava o caminho por de trás do Teatro Municipal e acabava saindo em frente ao O Rei do Mate, era o primeiro de muitos que hoje existem.
Tomava meu chá geladinho com abacaxi, era uma delícia, que sinto até o gosto, ainda hoje.
Entre ruas e cinemas famosos, comércios, multidões que diariamente trabalham pelo centro de São Paulo, essa é a minha São Paulo, da minha memória.
Jamais se esquece de São Paulo, quando se vive ou se trabalha nela.
Só pode saber do que estou falando, quem já viveu esta época em São Paulo.
Um abraço a todos.
E boas lembranças a vocês.