Alto de Pinheiros – Memória de 50 anos

Era um bairro longe de tudo, loteado pela Cia City, cercado de mato. Não havia a Praça Panamericana, as ruas eram na maioria sem asfalto, a ponte da Cidade Universitária menor, o Clube Alto Pinheiros era restrito e o Colégio Santa Cruz era ainda só de meninos. O segurança das ruas passava a cavalo e apitava a noite, acordando os moradores com aquele sinal irritante. Para fazer compras recorria-se à Rua Teodoro Sampaio – supermercado, fotógrafo, tecido para roupas, lá tinha tudo bom.

Meu pai construiu uma casa na região e eu tinha 13 anos quando me mudei. Depois do jantar era comum um passeio pelo quarteirão para regar as plantas e conversar com poucos vizinhos – na maioria os terrenos ainda estavam vazios. Era curioso como iam se fechando e as famílias sendo identificadas com uma amizade junto sendo construída.

E mais adiante, seguindo pela Pedroso de Moraes em direção ao atual Parque Villa Lobos, era um matagal de fazenda. O portão baixinho das casas era fechado constantemente já que, por vezes, vacas lá passavam e, sem esse cuidado, entravam tranquilamente para saborear as plantas. Os jardins eram lindos, com pedras, arbustos, flores e criatividade. Coqueiros foram semeados e hoje, imponentes, podem ser vistos pela Marginal de Pinheiros, cuja lembrança também traz o cheiro forte do rio, difícil quando o vento vinha para nosso lado. Andar de bicicleta era comum, livre, sem acessório, diferente do hábito atual.

Meu pai tinha por hobby consertar carros antigos e mexer com rádio amador, tudo que era máquina. Recordo-me de tempos em tempos, na garagem, peças espalhadas para todo lado do Romizetta, Karman Guia, Ford Bigode, Maverik, Mustang, SP2 "amarelo" (meu predileto, depois do velho Dauphine "cor de rosa") e de tantos outros, além de motos, veleiros, lanchas da Represa de Guarapiranga e das muitas loucuras do gênero que o momento permitia. Tinha um Buggy vermelho cujo motor era cuidadosamente preparado e só saía nas Copas do Mundo de Futebol, para festejar o momento, ganhando ou perdendo – era uma folia passear pelo arredor e na Marginal com as bandeiras do Brasil.

O máximo foi um Jaguar que ele arrumou inteirinho, lindo – levou cerca de dois anos para deixar como queria. Óbvio que minha mãe detestava e muitos desses automóveis ficavam pela rua, a espera do seu aval para entrar. Esse hábito meio excêntrico, nada esnobe, era divertido e atraía a amizade da vizinhança. Era uma grande cidadezinha do interior cheia de jovens, crescendo juntos, namorando, curtindo festas nas casas do bairro, nos finais de semana indo a sessões de cinema, de preferência Cine Paulista, Majestic e o grande Astor no Conjunto Nacional, como pretexto depois para descer a Augusta. Bons tempos, difíceis de reconhecer nos dias de hoje.

Mas, aos poucos a paisagem foi mudando. Chegaram, supermercados, bancos, McDonalds, farmácias… Os restaurantes: Senzala e A Ilha ainda eram o máximo. A USP ficou mais perto, movimentada com a ponte nova, o Alto de Pinheiros aumentou, os vizinhos casaram, tiveram filhos, descasaram, mudaram… Alguns poucos “pais dos pais” foram ficando, outros deixando-nos, e a região mudou completamente. As ruas transversais da Pedroso, ainda residenciais, guardam vestígios desse momento, embora a maioria esteja alugada, tenha sido vendida, demolida ou, por vezes, continuam vazias esperando o seu destino.

Hoje o bairro é lindo também, mas restam saudades daquele antigo, das árvores que foram cortadas para dar passagem, dos amigos e do bom tempo. Novos moradores vieram atraídos pelo verde e tranquilidade do espaço, um bom lugar para se criar filhos ou cachorros, na busca de uma vida com qualidade e muita calma – mas já não tanto quanto a 50 anos antes.

É um novo século para esse bairro tão lindo da Zona Oeste da cidade de São Paulo.

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