De repente, em 18 de setembro de 1950, surgiu um aparelho que ninguém imaginava: uma tal de televisão. Os comentários eram os mais variados. Todo mundo ficava a imaginar como seria essa engenhoca. Pois não era qualquer um que podia ter, a não ser que fosse rico.<br><br>Logo se ficou sabendo que uns ricaços que moravam na Rua do Porto (Leopoldo Couto Magalhães), esquina com a Rua Pequena (Prof. Atílio Inocente), no Itaim Bibi, tinham o tal aparelho. Logo surgiu alguém que conhecia aquele casal, pessoas de meia idade que nos permitiram que déssemos uma olhadela. Os quatro curiosos eram eu, Agostinho, Santino e seu irmão Léo.<br><br>Estávamos de boca aberta vendo nosso ídolo Mazzaropi fazendo um carrinho com cabo de vassoura e uma tampa de lata de cera Parquetina. A amiga da Ethelvina. Em seguida apareceu o Lima Duarte falando umas coisas que a gente, ainda pequeno, não entendia nada.<br><br>Já tínhamos matado a vontade de ver a tal novidade. Um dia, a prima da minha mãe, a Deolinda (Diola), disse ter passado em um bar que tinha uma televisão passando um jogo de futebol. Ela não tinha gostado muito daquele aparelho eletrônico trazido por Assis Chateaubriand. “Orlinda, é um negócio estranho. Uma hora aparece uma figura grande, outra hora de tamanho médio e depois “piquinininho”. Olha, é uma droga essa tal televisão.”.<br><br>Tinha bar que passava jogo de futebol ao vivo, mesmo porque não existia o tal videoteipe (que se escrevia vídeo tapa, depois videotape). Era a TV Tupi que os transmitia, em 1951, e quem fazia a transmissão era o ex-locutor esportivo da Rádio Tupi, Aurélio Campos. Sim, aquele mesmo que, anos mais tarde, apresentava, às sextas feiras, “O Céu É o Limite”, em que dizia “absolutamente certo”. Era um programa de perguntas e respostas.<br><br>Aurélio Campos era muito gozado. Quando um jogador perdia um gol na cara do goleiro ele dizia que até ele, ou então sua avó, marcaria. Todo domingo lotava o bar, de tanta gente que ia assistir jogo na televisão. Não demorou muito, o dono do bar exigia que todos consumissem algo. Os adultos, porque a molecada, além de não ter dinheiro, também não ocupava cadeiras ou mesas, ficava toda sentada no chão.<br><br>Um jogo que eu tenho na lembrança foi entre o Corinthians e Vasco, no Pacaembu, no início dos anos 1950. Como bom palmeirense, estava feliz da vida, porque o Vasco da Gama estava ganhando por 5 x 2. Já estava no segundo tempo. De repente, deu a louca nos jogadores do Corinthians, que desandaram a marcar gols, e o placar, então, foi para 5 x 5. Mais um minutinho de jogo e o grande Corinthians – naquela época, um time raçudo – venceria a partida.<br><br>Coitado de quem tinha televisão em casa. A vizinhança toda estaria batendo palmas, pedindo para deixar ver o jogo, como aconteceu conosco, quando meu pai comprou uma televisão Windsor. Uma TV ainda importada, comprada na Eletrolândia, Avenida São João.<br><br>Depois veio a TV Record, 27 de setembro 1953, que ganhou a audiência transmitindo futebol, e aí já havia milhares de aparelhos de televisão na cidade de São Paulo. Ex-locutores esportivos da Rádio Panamericana, a emissora dos esportes, foram para a televisão transmitir os jogos do campeonato paulista.<br><br>O repórter de campo, Raul Tabajara, era o narrador (talvez o melhor de todos, incluindo os de hoje). Ele não gritava gol como se fosse locutor de rádio, como fazem os de hoje. A bola entrava, todos estavam vendo, e então ele dizia: “que maravilha de gol”. Quando tinha uma jogada mais ríspida ele dizia: “Oh, Santo Cristo!”. Também perguntava: “Como está vendo o jogo, caríssimo telespectador?”. Tabajara deixava uma pontinha de ser torcedor da Portuguesa de Desportos, que tinha um timaço.<br><br>Num jogo em que o Corinthians perdeu de 7 x 3 para a Portuguesa, o diretor do Corinthians, Albino Lotito, o agrediu a guarda-chuvadas, o que revoltou a todos, e a direção da ACEESP pediu severas providências do presidente corinthiano Alfredo Ignácio Trindade.<br><br>Talvez sem querer, o câmera da TV Record, focalizando uma das casas acima da marquise da geral, focalizou uma menina na janela. Estando a televisão de sua casa ligada no canal 7, a menina acenava sua mãozinha como se estivesse dando tchau. Tabajara achou aquilo muito singelo e passou a interagir com a menina, pedindo que ela acenasse de novo – e era correspondido. Sem saber quem era a menina e jamais indo alguém lá para entrevistá-la, ela passou a ser a mascote da transmissão. Todo domingo, lá estava ela a acenar.<br><br>Na transmissão da TV Record também estava Paulo Planet Buarque, comentarista, Silvio Luiz, repórter de campo, com um microfone que devia pesar uns cinco quilos. Flavio Iazetti era o comentarista de arbitragem, e limitava-se a dizer se o arbitro tinha ido bem ou não. Tinha também Sergio de Andrade (Arapuã), chargista que desenhava os lances que vinham acontecendo. Um dia no Pacaembu, quando a Portuguesa perdia feio e torcedores saíam antes de o jogo acabar, ele desenhou tamancos com a inscrição: “Estão deixando o estádio”.<br><br>Em 1959, Reale Junior substituiu Silvio Luiz na reportagem de campo. Como ele era loiro, Raul Tabajara o chamava de canarinho. Mais tarde, foi substituído Milton Parrom na reportagem de campo. Aí também tinha um outro personagem, o sete belo, que se apresentava a caráter, de gravata borboleta. Tinha virado o símbolo das transmissões.<br><br>Quando os dirigentes da federação perceberam que os jogos transmitidos pela televisão tiravam o público dos estádios, proibiram a transmissão direta. Somente os jogos do interior seriam transmitidos, isso já em 1961. Mais tarde, isso também foi proibido. Para preencher essa lacuna, alguém disse: “Que tal fazer um musical vespertino aos domingos”.<br><br>Então contrataram, em caráter de experiência, por três meses, um tal de Roberto Carlos, que estava iniciando sua carreira e tinha gravado uma música de carro velho. Calhambeque, se não estou enganado.<br><br>e-mail do autor: [email protected]