Dia dos professores

A minha primeira professora foi a Dona Aurora. Eu a admirava muitíssimo. Na terceira série ela voltou a dar aulas para mim, felizmente.

No primeiro dia recebemos cadernos, lápis e a cartilha "Caminho Suave", cuja primeira lição era "A pata nada". Eu achava aquilo maravilhoso! Um livro para cada um de nós! Naquela mesma noite, encapamos cartilha e caderno, com o meu nome completo na capa, com a letra bonita da minha mãe e eu jamais tinha sentido tanto entusiasmo na vida!

Hoje, os novos pedagogos dizem que lições desse tipo traumatizam. Confesso que não fiquei nem um pouco traumatizada ao saber que a pata nadava. Muito menos que a "macaca era má" – nossa segunda lição. Naquele tempo não existiam profissionais especializados em culpar as escolas e os professores pelos nossos eventuais problemas ou fracassos. Não traumatizava e pronto! Todas as professoras do primário foram importantes demais para mim.

Com visível orgulho, levava eu a minha mala preta, com dois fechos metálicos e a lancheira com pão com mortadela e a garrafinha com suco de laranja. De vez em quando, também um bombom, uma pêra ou maçã. Às vezes um pedaço de bolo. E tudo tinha um brilhante sabor de conquista.

Nunca me esqueci do dia em que aprendi a fazer a letra “s”. No canto esquerdo da página, a professora colocou um carimbo com um sapo. Tínhamos que preencher toda a página com o “s”. Orgulhosa, mostrei a página para o meu pai, à noite, quando ele voltava para casa, engravatado do trabalho.

Não tínhamos dificuldade em dividir o lanche; ao contrário, sempre levávamos um lanche a mais para ofertar a quem não tinha nada para comer na hora do recreio.

Jamais esquecíamos a data: 15 de outubro era o dia dos professores. Era um prazer muito grande levar o presente na véspera. Numa das vezes, levei uma caixa de um quilo de bombons da marca Sonksen, uma caixa branca, e quase morri de vontade de comer um deles. Era sempre alguma coisa especial que levávamos. Jamais me esqueci o caso de um aluno da minha mãe que levou para ela um copo com doce de frutas. Escondido da própria mãe, ele levou uma colherinha no bolso e comeu um pouco. Senti, na época, muita vontade de chorar por isso. Tanta vontade, tanta pobreza… Ele ainda pediu para que, depois, ela devolvesse o copo. Senti muito orgulho pelo fato de a minha mãe fazer também um doce e colocar no copo para devolver ao menino.

E apesar das dores, da pobreza de muitos dali, a vida continuava, e sem traumas e sem críticas às professoras, que faziam de tudo para que a vida desse certo.

Somente em 1947, no governo Gaspar Dutra, ocorreu a primeira comemoração de um dia dedicado ao professor; ou seja, 120 dias após a assinatura do decreto do então imperador Pedro I. Por esse decreto, "todas as cidades, vilas e lugarejos deveriam ter suas escolas de primeiras letras". O imperador assinou tal decreto justamente no dia 15 de outubro, data consagrada à grande educadora Santa Tereza D'Ávila.

E assim foi… Ginásio, colégio, universidade, pós-graduação, outras especializações…

Infelizmente não tenho como agradecer nominalmente a todos. São muitos e de um significado muito profundo para mim.

O professor Antônio Pitorri, de Português, foi um verdadeiro mestre, com muita competência e bom humor. O Sr. Leonardo foi um grande companheiro, aliado de momentos difíceis, compreensivo e imensamente bom. Um sábio, de humor refinado e fina elegância moral. O professor Ferrarini foi o que me ajudou a abrir os olhos para as injustiças sociais e nos falava sobre "um mundo novo de esperança".
Todos indistintamente contribuíram com a sua paciência, consideração, conhecimento, afetividade e sabedoria para a minha formação ética e profissional.

Fui muitíssimo privilegiada ao ter aulas, na universidade, com a professora Dra. Anita Novinsky, a maior autoridade no Brasil sobre Inquisição. O professor Edgar Carone, grande pensador marxista, autoridade em movimento operário no Brasil; o professor Fernando Novais e tantos outros, com um brilhantismo invejável!

Hoje tenho uma mestra ao meu lado, durante quase todos os dias de trabalho: professora Maria Luiza Perico. Uma pessoa ímpar na integridade, nos princípios de ética, conhecimento, entendimento do humano, refinada percepção da realidade. Uma pessoa que, com o olhar, diz tudo. Sinto-me fortalecida ao seu lado, sempre tentando beber um pouquinho da sua sabedoria para que eu possa ter uma vida mais bela e correta. Quantas vezes, em momentos difíceis, eu penso: "o que a Maria Luiza faria no meu lugar?". E tento agir como ela agiria. Feliz aquele que tem uma professora Maria Luiza como companheira de jornada! É uma luz na estrada, num caminho que nunca se acaba, como é o caminho de uma professora.

Gostaria de homenagear a todos eles, professores e professoras desse país tão sofrido, de coração pleno. Infinitamente.

e-mail do autor: [email protected]