Bonecas na escola

Quando eu fazia o primário no Grupo Escolar Rodrigues Alves, que existe até hoje na Paulista, era costume levar as bonecas no último dia de aula, que era também um dia de festa, com mesa de doces e refrigerantes, serpentina no quadro-negro e muita confusão.

As professoras, provavelmente, não percebiam que era uma grande ocasião social para nós, menininhas de oito ou nove anos, e que o tamanho da boneca e como ela estava vestida iria nos elevar aos pínáculos da popularidade, ou nos atirar no fundo do poço.

Por este motivo, era um Deus-nos-acuda em cada família quando se aproximava o dia de levar a boneca. Era imperioso que a boneca fosse grande, tivesse uma roupa nova, tivesse sapatinhos, laço no cabelo, fosse uma boneca da moda – por exemplo, a “Meu Sonho”, ou a “Amiguinha”. Quem levasse boneca comprada em feira, daquelas de plástico mole, estava sujeita a ser alvo de risadas e, ainda pior, de ostracismo social completo.

O assunto era sério. A minha boneca era a “Meu Sonho”, porém, a coitadinha não tinha roupas decentes. Como eu só tinha um irmãozinho, não havia vestidinhos sobrando para colocar na minha boneca (se bem que eu chorava para ganhar da minha mãe os casaquinhos velhos do nenê, meu irmão, e as botinhas que já não lhe servissem).

Mas o dia de levar a boneca na escola não era dia de vestir roupa de segunda mão do irmãozinho. As meninas amolavam as mães, choravam, pediam e suplicavam por um vestido novo para a boneca, para o grande dia. Lembro-me que minha mãe fez um vestido branco de bolinhas vermelhas com dois bolsinhos para a “Meu Sonho”, cujo nome era Vânia Maria e tinha até certidão de nascimento.

Eu tinha duas grandes amigas na escola: uma era a Nazaré, que possuía uma boneca “Amiguinha”, chamada Patricia, e um baú de roupas para ela. Que inveja fazia! A outra amiga era a minha preferida: a Ana, que vinha de uma família do interior, gente boa, porém muito pobre. Ana tinha duas outras irmãs e um grande problema: só havia uma boneca para três meninas na casa dela. Naturalmente, a irmãzinha mais nova ficava sempre com a boneca que era das três.

Naquele ano, no dia de levar a boneca para a escola, a Ana apareceu com a boneca coletiva, que havia sido bem lavada, porém era pequena e simples. Pela sala, toda meninas passeavam suas bonecas que andavam, falavam e se vestiam com luxo, mas Ana estava até bem feliz de estar com a bonequinha que (eu presumo) ela raramente pegava, tendo que disputar a dita cuja com as irmãs.

A festa ia animada, comida pra todo o lado, uma bagunça de esfriar o coração de qualquer faxineira de escola. De repente, alguém nota a Ana com a boneca (que também tinha nome, Eliane):
– Ei! Esta boneca não é sua, é da sua irmã! Eu via a sua irmã com esta boneca, não é sua, não!
– É minha sim, dizia Ana com uma ar de desafio.
– Esta boneca é da sua irmã!
E começou o coro:
– Boneca da irmã! Boneca da irmã! Não tem boneca!

Não me perguntem onde estavam os professores a esta altura. Eles davam graças a Deus pelo último dia e deixavam a classe festejar, enquanto sumiam na sala dos professores tomando café.

A coisa continuou por algum tempo. Tentaram arrancar a boneca das mãos de Ana, que finalmente não agüentou mais e saiu correndo da escola, deixando o prato de manjar branco que sua mãe fizera com tanto sacrifício. A escola era longe de casa e nem sei como ela chegou sozinha, pois geralmente os pais se revezavam para ir nos buscar.

À tarde, depois da festa terminada, passei na casa de Ana. Entrei, pois a porta ficava geralmente aberta. Ana estava deitada de bruços na cama, chorando. Sua mãe estava na máquina de costura, ao lado. A irmãzinha, Maria, aos três anos, sentada no chão, lambuzando a boneca de chocolate. A mãe da Ana me perguntou o que havia acontecido na escola e, enquanto eu dava a minha versão dos acontecimentos, a Ana chorava mais ainda. E a mãe:
– Pois as meninas estão certas, a boneca não é dela mesmo, é da Maria, que é pequena. Eu falei pra ela não levar boneca nenhuma pra escola, mas ela pegou escondido. Bem feito, ué.

Enquanto a Ana chorava de fazer dó, criança como eu era, senti que algo estava profundamente errado em tudo isso. Era errado um pai não poder comprar uma boneca para cada filha. Era errado dizer que a Ana era grande e não precisava de boneca (com oito anos). E era, acima de tudo, errado fazer o tal dia da boneca na escola.

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