Quando garoto, tínhamos varias atividades, jogar bola, brincadeiras, como de pular sela, mãe da rua, mocinho, nadar no Ibirapuera. Isto para quem morava como eu no Itaim – Vila Olímpia, Vila Nova Conceição. Mas o que gostávamos mesmo era do desafio de subir a Avenida Brigadeiro Luiz Antonio. Para quem morava nesses bairros acima citados, a coisa começava logo no início da avenida, que pela numeração era o final. Numero cinco mil e tantos. Quando a gente chegava à Rua Jundiaí, em frente ao ginásio já dava para sentir o que vinha pela frente. Um monte de paralelepípedos, num aclive que dava arrepio na espinha. Minha bicicleta era uma de meia corrida aro estreito e bem leve. Já estava conseguindo ir alem da metade. Isto fazíamos pelo menos umas duas vezes por semana. Certo dia, estávamos todos emparelhados, na metade ou mais da subida, todos de língua de fora, tínhamos nossos 14 anos. Ninguém queria dar o braço a torcer, mas todos estavam querendo parar. Foi quando alguém gritou: Gente vamos dar um tempo? Claro que todos concordaram. Seis ou sete bicicletas estavam estacionadas de fronte a uma doceria. A doceria Pão de Açúcar, do seu Valentin. Um português bem educado, que nos dava água. Mas estávamos mesmo de olho nos doces.
Como todo mundo tava duro, o negócio era ver com os olhos e lamber com a testa.
Mas aquela água torneiral caia bem. Mas o que chamou a atenção de quem estava na doceria era que antes de tomar a água, molhávamos a barriga. Um casal de balzaquios que estavam lá riam a beça. Era o conselho do seu César, pai de um dos que estavam disputando a chegada na Praça da Sé. Ele dizia que quando estávamos suados não devíamos beber água sem molhar a barriga. Naquele setor estava a bexiga e com a quentura provocada pelo sol e o esforço, podia dar choque térmico. Era aquela coisa de não poder tomar leite com manga, pinga com pepino e outras historias gastronômicas. A verdade é que levávamos ao pé da letra. Sabe conselho de véio, tem que ser respeitado.
Uns quatro anos depois vimos seu Valentim num supermercado ali mesmo na metade da subida. Era o Sirva-se, cujo letreiro era em sentido vertical, na fachada do prédio. SUPERMERCADO SIRVA-SE. Parece-me que foi o segundo armazém que dava o direito de o consumidor pegar a mercadoria e depois pagar no caixa. O primeiro foi o Peg Pág, que ficava no terreno onde era o campo do Clube General Couto Magalhães, na esquina da Rua Joaquim Floriano com São Gabriel. OLHA, NÃO DIGAM NADA A NINGUEM. Eu me especializei em subir a Brigadeiro, de bicicleta sem dar uma paradinha sequer.