Mais um ano que se passa e ele não está mais entre nós, quantos anos convivemos e comemoramos tantos fatos, com seu filho e seus netos, quantas aventuras, alegrias, tristezas.
Velho, meu querido velho, como diz a canção quanta experiência, quanta vivência, quantos casos contados, uma verdadeira saga.
Sua vida inicia quando começou a primeira guerra mundial em 1.914-1.918, nascia meu velho pai no final da Primeira Grande Guerra Mundial, sua terra a Polônia foi invadida por estranhos em nome não se sabe de quem ou em razão de que. Fizeram com que seus pais, com ele no colo, corressem de um lado para o outro, assustados, em razão de bombas que explodiam por todos os lados. No seu nascimento ao invés das visitas, presentes, luminosidade, festa e alegria dos pais, era escuridão total para camuflar a casa dos invasores da guerra e nesse período ao invés de ouvir o nana neném para dormir, ouvia-se os barulhos ensurdecedores das bombas, das sirenes, que ecoavam até doer os ouvidos.
Só se ouviam gritos confundidos com tiros e bombas, e lá se ia uma casa, uma família, e o desespero era implantado na cidade, no país e, porque não, no mundo.
Depois de quatro anos, por um milagre, a família do meu querido velho se salva, sem casa, sem comida, sem roupas, porém vivos e felizes pelo filho que acabara de nascer. E, quem ganhou a guerra? Quem ganhou passou a ter razão e os méritos, quem perdeu teve a desonra e foi o culpado, mas na realidade todos perderam.
Enfim, em 1919 começa a reconstrução de tudo, do zero, mas ainda com o som dos morteiros soando nos ouvidos.
Meu pai morava em uma fazenda próxima de Varsóvia, plantavam, colhiam, cuidavam de animais como cavalos, porcos e aves em geral.
Aos 18 anos serviu o exercito polonês e se orgulhava de suas fotos com o uniforme garboso, ao fim de um ano voltava à vida pacata da fazenda com sua família.
Antes de completar 21 anos de idade, em Setembro de 1.939, novamente o susto e o desespero: a sua cidade, a sua casa é tomada de supetão por tropas nazistas, que chegam na hora do almoço num certo dia frio do mês de setembro de 1.939, que sem perguntar escolhem uma pessoa da família para ser prisioneiro, geralmente uma pessoa mais forte e nova, de preferência do sexo masculino e com ofício para trabalhos forçados, se não havia homem ia uma moça mesmo.
Na Alemanha trabalhou forçado por seis anos, durante todo tempo ouvia e via os estrondos da guerra, morte por todos os lados, a cor vermelha era a mais comum, pois era a cor do sangue derramado pela guerra. Durante esses anos seu alimento em troca do trabalho era um pouco de ração, um cigarro e de vez em quando uma cerveja por ser disciplinado e um bom operário. Ali aprendeu a fumar e a beber, até para esquecer as agruras da vida. Vale ressaltar que ele não foi maltratado fisicamente, pois era empregado de um alemão que não tinha vínculos com o nazismo, apesar de fabricar também material para os nazistas. E, até certo ponto, protegia os injustiçados pela guerra, tornando assim, verdadeiro o filme "A lista de Schindler". Às vezes tinha que se esconder nos porões para não ser preso por uma blitz da SS.
Antes do final da guerra conheceu minha mãe, uma loirinha polonesa também prisioneira de guerra e ali mesmo com autorização dos alemães se casaram, seu vestido branco se confundia com o branco da neve que cobria tudo e meu pai de preto com um terno emprestado todo garboso se uniram em nome de Deus.
Quando acabou a guerra em 1945, estava do lado ocidental dos aliados onde os americanos tomaram conta e dirigiram a saída deles para onde queriam ir.
Nesta época a maioria queria ir embora daquele inferno, a cidade parecia ter passado por um terremoto. E passou mesmo, mas por um sismo forçado, pela ira e ignorância do ser humano. Muitos países estavam aceitando imigrantes, até pela mão-de-obra que podia significar produção para suas lavouras ou fábricas. Havia nos portos um grande número de navios com vários destinos para atender os refugiados de guerra.
A confusão era tanta que muitos embarcavam em navio errado ao invés de ir para o Brasil acabavam indo para a Argentina, ou ainda, ao invés de ir para Austrália iam para os EUA e vice-versa, também muito procurado foi o Canadá.
Meu pai e minha mãe decidiram vir para o Brasil com uma malinha e a roupa do corpo, nem pensaram em voltar para a sua terra natal, ali do lado, pois ela tinha ficado com os russos, regime de ferro, escravidão.
Muitos de seus amigos e parente foram para os EUA, Austrália e outros países. O navio que veio para o Brasil costeou a África, e parou em um dos países africanos para abastecer, ficaram conhecendo uma fruta que nunca viram: a banana. A trocaram por algumas coisas com os nativos e resolveram comê-la, porém, não sabendo, comeram com casca e tudo. Outro fato interessante: meus pais nunca tinham visto um ser humano de cor negra, acredito que vice-versa daquele povo da costa africana.
Chegaram ao Brasil depois de 16 dias de viagem vendo somente céu e mar. Com isso muita nostalgia, incertezas e doenças a bordo. Desembarcaram no Rio de Janeiro em 1946 e ficaram de quarentena na Ilha das Flores, depois de um ano vieram para São Paulo e rumaram ao interior, primeiramente Bauru e Penápolis onde trabalharam na agricultura, depois foram para Pederneira trabalhar numa pedreira, voltaram a São Paulo e meu pai arrumou emprego em uma empresa de demolições na Avenida São João, que estava sendo alargada em 1949. Como seu ofício era a mecânica empregou-se na GM de São Caetano do Sul, onde morou, depois veio para Vila Mariana em fins de 1949, onde conseguiu emprego na incipiente fábrica de liquidificadores Wallita, um galpão de madeira, e depois desse emprego só trabalhou em mecânica até se aposentar.
Nessas andanças a procura de nova identidade, tendo que aprender novo idioma, adaptar-se a outro tipo de alimento, calor, em terras estranhas, mas, apesar de tudo, todos tinham algo em comum: fixar-se no Brasil. A maioria dos que vieram naquele navio, até então, tinham o mesmo destino: andavam em grupo pelo menos uns três anos e aos poucos cada família ia para algum lugar diferente, a maioria dos poloneses se concentraram aqui em São Paulo no bairro de Vila Zelina, Luz e nas Cidade de São Caetano do Sul e Osasco, meu pai e mais uns quatro casais vieram se fixar no bairro do Brooklin, Zona Sul, sabemos que no Paraná também há um grande contingente de poloneses, ucrânianos, lituanos vindo também antes e depois da guerra.
Nesta viagem ao Brasil conheceram vários patrícios no navio e alguns deles vieram morar próximos um do outro. Alguns conseguiram logo uma casa própria, meu pai morava de aluguel na Vila Carmem perto do Brooklin, Piraquara, onde nasci em 1950.
Como todos os poloneses, ucranianos, eslavos ocidentais em geral são muito devotos, cristãos católicos fervorosos, precisavam ir à igreja, mas como ainda não se entendiam muito com o idioma português e muito menos com o latim, língua que na época eram rezadas a missas, descobriram através de outros conterrâneos uma Igreja Católica: a de Nossa Senhora Auxiliadora, no bairro de Bom Retiro, na Rua Três Rios ao lado da antiga Politécnica da USP, atual FATEC.
Essa igreja celebrava missa em diversos idiomas. Lembro-me que meus pais me levavam aos domingos nessa igreja num certo horário que a missa era no idioma polonês, e ali se reuniam todos os imigrantes poloneses, ucranianos, lituanos, espanhóis e outros, todos vindos do pós-guerra. Após as missas formava-se "rodinhas" de pessoas, cada qual com seu sotaque, era uma festa de abraços, sorrisos e lembranças recentes do holocausto. Nessa igreja fui batizado no idioma polonês em 1951. Entre os poloneses além dos Rybczynski, lembramos dos: Rygeta, Iwanski, Danelczuk, Witas, Sudakov, Sczerba, Milczarek, todos falecidos, desse grupo só meu pai e os Iwanski deixaram herdeiros, assim nós procuramos eternizar suas memórias em família e no SPMC.
Depois da missa no idioma respectivo íamos passear no Jardim da Luz, próximo da igreja e ao lado da estação de trem da Luz, passávamos até a hora do almoço ali, depois rumávamos para casa, até retornar no próximo domingo. Isso durou vários anos até aprenderem o idioma português, com isso as visitas a essa igreja iam se tornando mensais depois anuais, pois começamos a freqüentar a igreja católica do próprio bairro e a distância entre eles ia aumentando cada vez mais, pois cada um ficava em seu reduto, seu bairro. Hoje revendo fotos da época, não deixo de notar um fato interessante: todos usavam terno e chapéu e isso era normal no dia a dia, dando um ar muita elegância.
O interesse de meu pai em comprar um terreno desde que chegou a São Paulo era prioritário, pois pagava aluguel e morou em várias casas, isso o levou todo fim de semana ir sentido ao extremo da zona Sul até achar um terreno, pois onde morava o valor era muito alto. Foi para o Jabaquara, outro dia foi a Santo Amaro, num outro até a Chácara Santo Antônio e assim sucessivamente, até que em junho de 1.950 chegou num bairro incipiente cheio de chácaras e ruas de terra, logo após a ponte João Dias sobre o Rio Pinheiros, chamado Vila das Belezas. “É o fim do mundo”, assim reclamava a minha mãe comigo no colo recém-nascido, “aqui não quero morar, deve ter até índio, sem luz elétrica”, ainda o terreno que o loteador ofereceu ao meu pai nem rua tinha, mas o local era alto, de visão infinita, sem limites, linda, por isso o nome Vila das Belezas, só se conhecia por aqui Capão Redondo e Campo Limpo, o ônibus chegava só até a estrada de Itapecerica da Serra, o resto do caminho era a pé.
Meu pai acabou comprando o lote, desmatou, cercou e depois construiu uma pequena casa. Entraram nela sem janelas e sem forro, nos fins de semana ia completando a construção com minha mãe e eu no carrinho de bebê.
Meu pai não parava para nada, trabalhou uma média de 14h00 por dia durante muitos anos, sempre trocou de emprego para melhorar o salário, na década de 1950 até 1970 era fácil conseguir emprego, prova é que ele se aposentou com 33 anos de trabalho, fora os anos que perdeu na Europa, e nunca ficou desempregado, saia de uma empresa no dia seguinte estava em outra, trabalhou em quatro empresas, seu ofício era ajustagem mecânica de válvulas, e se aposentou em 1.978.
Meu pai sempre trabalhou, nunca teve tempo para estudar idiomas e tantos imprevistos sociais, mas teve como base uma formação cultural da terra onde nasceu, cujo lema era: o trabalho dignifica o homem.
Ele teve alguns vícios que adquiriu durante a guerra, mas parou a tempo de causar prejuízos á saúde, com 55 anos, a conselho médico.
Meu pai, Josef Rybczynski, faleceu, com 89 anos em 2007, lúcido, era viúvo há 26 anos, aposentado há 28 anos, levou uma vida saudável na velhice, nunca mais voltou a sua terra natal, mesmo porque havia o problema da guerra fria que não permitia a visita e, após isto, a idade não permitia essa viagem longa. Gostava tanto do Brasil, do calor, da sua gente, que não se habituaria mais a língua, clima e aos costumes europeus.
Fato triste é lembrar que com meu pai, morre também um clã de pessoas, ele foi o ultimo imigrante a morrer daqueles mais próximos que vieram um dia no navio da Europa em 1.945.
Com essa resumida história quero homenagear todos os imigrantes que vivenciaram ou não uma guerra, mas que, de uma forma ou outra, venceram as barreiras cruéis de uma época, e que deixaram a semente vigorosa que são seus descendentes, filhos, netos e bisnetos que precisam conhecer essa saga e dar continuidade ao nome e honradez dos seus antepassados, além de também escrever a sua.
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