Determinadas coisas parecem não sofrer a ação corrosiva do tempo. São Paulo é conhecida por sua incansável marcha em prol do progresso, em razão do que muitas vezes põe sua própria história abaixo, a marretadas. Caso emblemático é o do Palacete Santa Helena que, é claro, conheci apenas por fotos antigas. Demolido para dar lugar à estação Sé do metrô, foi tratado como lixo. Nem mesmo as esculturas que integravam o conjunto arquitetônico foram preservadas. Era a pressa que ditava o ritmo da "evolução" urbana de São Paulo.
No entanto, o tempo poupa algumas casas, prédios, ruas, situações, comportamentos. Parece que, desinteressado deles, deixa-os à posteridade, para admiração. Dou-lhes um exemplo: as casas inglesas da Rua Jorge Moreira, Ipiranga, que tenho o privilégio de avistar de minha janela.
São quatro casas antigas, com portões baixos, em uma rua tranqüila. Espremidas entre as movimentadas avenidas Dom Pedro e Teresa Cristina, assistem a tudo impassíveis, com a serenidade só alcançável com o tempo. De vez em quando, algo vem lembrá-las de que o tempo passou e São Paulo não é mais aquela de quando foram erigidas: um carro apressado que entra em sua rua de paralelepípedos para fazer um retorno, o barulho frenético de sirenes, a freada imprudente de um ônibus.
Há outros locais poupados pelo tempo: a sapataria Fidalga; a botica ao Veado D'ouro, o Ed. Sampaio Moreira. Quem lembra de mais algum?
Há ainda a possibilidade de uma reversão na escala temporal, possível mediante inteligência e iniciativa humanas. Caso do já ilustre Bonde Histórico de Santos. Graças a este, pude aferir a sensação de andar em um bonde, veículo tão lembrado neste site. O imaginava mais veloz, mas fiquei surpreso com a maciez do rodar. Algo que era tão distante a mim, que mal podia vislumbrar com clareza, me foi apresentado ao vivo, em uma reveladora experiência. Santos ficou mais bonita vista da janela de um bonde.
Vendo assim, o tempo parece tão relativo…
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