Cedinho na vida fui impactado pela sétima arte. Aos seis anos de idade, descobri o cinema e ele me descobriu. Minha primeira sessão de cinema aconteceu em uma exibição de rua, como foi relatado em uma história anteriormente publicada no site São Paulo Minha Cidade, com o nome de Cine Paradiso: Minha primeira sessão de cinema. Tal experiência marcou para sempre tal encantamento e deu asas a minha imaginação. Ao passar da infância para adolescência ganhava autonomia para fazer minhas próprias escolhas, de onde ir, assistir o quê e com quem?
Além das festinhas improvisadas de garagens e dos bailes de aniversários e outras situações onde se podia dançar e se aproximar de uma garota, eram nas matinês o local predileto pelos meninos para aprendizado e aperfeiçoamento dos beijos. Depois da ansiedade e insegurança do primeiro beijo, os demais aconteciam sem muita resistência. Com a duração de duas horas em uma sessão de cinema no escuro era tudo o que os jovens queriam para esse aprendizado, de preferência para quem já tinha sua namorada. Mas, nem sempre as coisas aconteciam como se esperava.
Nesse momento da vida, estudava no vocacional, uma experiência maravilhosa em escola pública em período integral nos anos 60 que aconteceu no Estado de São Paulo. Fui da 2ª turma de 120 alunos que passaram no exame de seleção. Entrei no ano de 1963. No primeiro dia de aula éramos todos recebidos como um dia de festa na escola. Logo de início, para esquentar os motores, éramos levados a participar de uma gincana de acolhimento e integração de novos e velhos alunos e com os professores. Aconteciam brincadeiras com a intenção de colocar os recém-chegados bem à vontade.
Na escola, todos os trabalhos funcionavam em equipe. Trabalhar em equipe ocupava praticamente todos os momentos de estudos e salas de aulas no currículo da escola. Quando havia entrosamento além da conta, as equipes almoçavam e brincavam juntas, estendendo uma amizade além dos muros da escola. Até então, meninas e meninos estudavam nas escolas tradicionais, em escolas separadas ou classes separadas. Para a maioria dos alunos no vocacional, o fato de estudamos juntos fazia parte de um novo aprendizado. Para os meninos, um cuidado especial em relação a determinadas brincadeiras e para meninas, se desgrudarem umas das outras.
Além das atividades em classe, saíamos em Estudo do Meio, fora da escola dentro do período de aula fazendo pesquisa de campo, visitas ou entrevistas de acordo com determinados trabalhos. E duas vezes por ano fazíamos viagens de Estudos do meio em outras cidades ficando quase uma semana longe dos pais. A convivência diária com os dois sexos abria uma nova visão de vida para todos. Além de estudos, almoços, também aprendíamos danças regionais e saíamos em viagens em conjunto. Viver lado a lado com garotas o dia inteiro era ao mesmo tempo uma delícia e um desafio. Difícil era se manter concentrado nas aulas no começo.
Namoros e namoricos eram normais dentro da escola sem grandes preocupações dos professores, a não ser que determinado aluno deixasse cair seu rendimento e ir mal em suas avaliações. Quanto ao resto, corria tudo em paz. De repente, éramos flechados por algum cupido. Foi ali nessa escola que aconteceram minhas primeiras e mais significativas experiências afetivas como jovem. Minha equipe era formada por 3 meninos e 2 meninas. As duas eram muito bonitas e cada qual tinha o seu charme. Uma delas tinha olhos azuis e a outra tinha olhos cor de mel. Inicialmente me interessei pelas duas, talvez pela questão da beleza. A de olhos azuis era falante e provocativa. A outra tinha um olhar meigo e um sorriso cativante.
De repente, surge um interesse mútuo. Em conversas no corredor da escola alguém soltou que havia uma garota que estaria interessada em mim. Fiz minhas sondagens e descobri que era a mesma a qual eu estava interessado. Apesar de nossa convivência diária de trabalho e estudos, falar diretamente de outro assunto que você estava envolvido não era fácil. Sondei uma amiga próxima dela para saber das possibilidades de uma investida. A resposta que veio foi que eu teria passe livre. Um encontro para uma conversa séria foi marcado para depois da hora do almoço, longe dos olhares da maioria. Na hora certa e momento certo nos encontramos. Tentando controlar minha fala, acabei enrolando, mas, a pedi em namoro. E ela prontamente aceitou.
E ai? Eu não sabia o que fazer. Acabei agradecendo o sim e dei um beijo no rosto. Acho que ambos ficamos vermelhos. Com o assunto resolvido, entendemos que deveríamos voltar ao convívio de todos. Ao voltarmos ao centro do pátio, percebemos que éramos observados por uma grande plateia dos colegas de classe. Assovios e gritos surgiram como se tivesse acontecido um gol. Profundamente envergonhados, retornamos e cada um foi para o seu canto. A partir desse dia passamos a nos sentar um ao lado do outro, nos trabalhos em equipe e na hora do almoço. Sempre que possível, nos armários e na hora de pegar o ônibus para casa, ficávamos juntos na esperança de ficar de mãos dadas. Acabamos ficando em um grude. Em algumas aulas era possível ficar de mãos dadas invertendo mão direita dela com a minha mão esquerda, debaixo da carteira. Ambos fomos fisgados pelo cúpido.
Durante o dia, nos movimentávamos pela escola inteira, pois cada disciplina tinha sua sala específica. Cansamos de matar a vontade de andar de mãos dadas. Mas, beijo que é bom, estava difícil, pois não queríamos “dar bandeira”. Como quem procura acha, acabamos encontrando um momento perto da biblioteca, ao subir para o andar superior percebemos que não havia ninguém no nosso campo de visão. Entendi que era o momento certo e em um abraço apertado trocamos um longo beijo teatral. Não sei quanto tempo durou. Perdemos a noção. Para disfarçar, eu subi as escadas e ela desceu para dar um tempo e nos encontrarmos no pátio. Minha cabeça rodava sem parar. Era emoção demais. Acabei indo ao banheiro jogar água no rosto, pois tinha a impressão que minha temperatura tinha subido e meu rosto vermelho acusava isso. Para não sermos pegos no flagra, combinamos em ir ao cinema na primeira oportunidade para matar nossa vontade. Como ela morava na Brigadeiro Luís Antônio, combinamos um cinema perto de sua casa.
Domingo, 15 minutos antes de começar a matinê (14h), lá estava eu. De longe percebi sua silhueta. Percebi que ao seu lado estava uma colega da escola que eu conhecia. Até aí, tudo bem. Ao me aproximar, outra figura feminina se apresenta como acompanhante, era sua irmã mais velha. Fiz o que pude para disfarçar, não sei se consegui. Acabei pagando a minha entrada e a dela. Quando foi possível ela tentou me explicar que, ao sair de casa, sua mãe fez pé firme que a irmã mais velha a acompanhasse ao cinema. O combinado era levar uma amiga para ter passe livre com sua mãe ficando de vela. Bem, na época eu tinha 12 e ela também.
Como o cinema era perto da casa dela, não me preocupei em saber o nome do filme. Entramos e sentamos juntos. Mas, ao lado dela, sentou-se a irmã. Percebi que meus planos estavam perdidos. Tentei ficar de mãos dadas, mas a irmã ficava de antena ligada. Resolvemos usar o mesmo artifício usado na escola usando as mãos invertidas. E assim ficamos o filme todo. Sem ter outra coisa para fazer, acabei prestando atenção ao filme. O filme era uma espécie de documentário sobre um lobo selvagem, Nick o valente indomável. Tive certeza que não houvera nenhum tipo de beijo que pudesse servir de incentivo ao filme. Saímos do cinema com a ponta dos dedos doendo de tanto que apertávamos um ao outro. Nos despedimos com um aperto de mão, ambos frustrados. Toda minha expectativa de usar os meus truques de beijos tinham ido por água baixo. Voltei arrasado.
Namoramos durante um ano, aproveitando as chances que apareciam na escola. Desmanchamos e reatamos umas sete vezes. Mas, nunca mais conseguimos ir novamente ao cinema.
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