Viver em São Paulo é viver em meio a surpresas diariamente, basta observar seus detalhes.
Certa vez, em minha infância, ao passar vagarosamente pela Marginal do Rio Tietê em um dia de congestionamento, vi uma pequena árvore que tentava sobreviver ao lado de um grande bloco de concreto e no meio de muito entulho.
A pequena árvore ficava pouco antes da Rua Werner Siemens, no sentido Lapa/Penha. O lugar não era bonito; o alto de um pequeno barranco fazia com que ela ficasse acima do nível da rua e fácil de ser observada.
Observei fixamente aquela pequena vida tentando sobreviver às condições mais adversas possíveis: solo inadequado, poluição e falta de regas. Tudo conspirasse contra àquela frágil vida.
Bom, os anos se passaram e sempre eu buscava ver se a arvorezinha estava conseguindo se desenvolver.
Ela crescia bem devagar e indiferente ao ritmo apressado das milhares de pessoas que transitavam por ali diariamente.
Em um certo mês de agosto houve uma queimada no local e ela foi afetada. Cheguei a pensar que ela não sobreviveria. Enganei-me! Semanas depois brotavam tímidas folhinhas. Era o sinal de que ela resistira novamente.
O mundo mudou muito desde a primeira vez que vi aquela árvore, aliás, a minha vida mudou e, com certeza, a vida de todos que passavam por ali também mudou. Enquanto isso a pequena árvore foi crescendo timidamente.
Hoje ela se transformou numa árvore frondosa, os seus galhos abrigam pássaros, suas folhas de um verde exuberante proporcionam uma gostosa sombra. O bloco de concreto ainda está lá só que escurecido pela fuligem e esverdeado pelo musgo. O entulho sumiu em meio a vegetação que cresceu ali. A pequena árvore sobreviveu e está linda!
Pela primeira vez, na semana passada, vi suas flores e descobri que se trata de uma paineira.
Ali está ela deixando mais bonita nossa Marginal do Rio Tietê.
A Paineira da Marginal do Rio Tietê é uma prova de que, muitas vezes, é possível superar todas as adversidades e vencer. Ela é a prova de que os seres vivos têm em si algo que busca sobreviver e superar os obstáculos.
Esta é também uma homenagem que faço a todos os migrantes e imigrantes que chegaram a São Paulo e mesmo com dificuldades fincaram neste solo suas raízes e de alguma forma fizeram algo de bom por esta cidade.
Que no próximo ano busquemos superar nossas dificuldades, assim como a pequena árvore fez.
Espero que ela continue ali por muitos anos!