Novembro de 1968.
Estava em São Paulo Elizabeth II, da Inglaterra, em visita oficial ao Brasil.
Não sei por que fui convidado para jantar com a rainha, devidamente acompanhado pela Raphaela.
Eu, ela, e soubemos depois, mais de dez mil pessoas.
Se não eram tantas, pareciam.
Raphaela correu para a casa da Gilda costureira.
Saiu de lá em busca de tecidos importados, na Casa Hasson.
Para mim, a coisa ficou mais complicada.
Sumiram as casacas de São Paulo.
Época em que se ia ao cinema de paletó e gravata, usava-se traje social completo nas aulas da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, chamava-se os professores de Excelência, e, nas solenidades oficiais, era obrigatória a casaca. Às vezes, os fraques, como no Grande Prêmio Brasil de turfe. Smooking's eram facultativos nas idas aos teatros e às boates, e obrigatórios nos bailes de formatura do Clube Homs.
Meu amigo Jorge dizia que o seu smoking tinha o ombro manchado por pó-de-arroz e lágrimas. Éramos uns patifes!
Com a chegada da rainha em São Paulo, muita gente voava para o Rio de Janeiro para tentar alugar as casacas.
Eu tinha uma casaca usada pelo meu falecido avô, homem pequeno.
Depois de muito procurar, consegui, por empréstimo, a casaca de cena do ator Sergio Cardoso, oferecida pelo Cassiano Gabus Mendes.
Sergio era dois palmos mais baixo do que eu.
Tinha gente com problemas maiores.
A casaca do meu avô não cabia em ninguém, mesmo assim emprestei-a ao Presidente da Caixa Econômica.
Homem alto e corpulento, ele suspirou e entrou no traje, sabe Deus como.
O Palácio dos Bandeirantes, engalanado, explodia em luzes e os convidados foram recebidos no saguão, que logo ficou lotado.
Não cabia uma agulha.
Calor sufocante.
Engraçadíssimo o jogo dos coletes brancos: alguns, muito curtos, terminavam acima do umbigo; outros, muito longos, chegavam quase aos joelhos, cobrindo o que não deveriam cobrir.
Volta e meia passava alguém segurando um prato cheio, talheres, o copo de vinho, guardanapos e as senhoras, ainda bolsas e luvas. (Passava é modo de dizer, pois estavam todos condenados à imobilidade).
Em pé, era impossível trinchar as rodelas de filet mignon do caprichado Chateaubriand. O molho madeira escorria pelas bordas dos pratos inclinados, manchando vestidos e casacas.
Diante do sumiço dos garçons, sepultados no âmago da multidão, eu e a Raphaela concentramo-nos na sobremesa.
Sorvete.
Um determinado embaixador (não vou dizer o país), desesperado, tentou arrancar o sorvete das mãos da Raphaela.
Ela agarrou o pires e a colherinha com vigor extraordinário. Veterano de guerra, o embaixador procurou um ponto fraco.
A taça!
Estava solta, equilibrada no prato!
Ele agarrou a taça e fugiu, em busca de uma colherinha.
Raphaela, desconsolada, segurava o pires vazio e uma inútil colherinha.
Quase uma crise internacional, que não aconteceu porque um garçom surgiu do nada e providenciou outra taça de sorvete para a Raphaela.
De repente ficou claro que o saguão do Palácio dos Bandeirantes era pequeno para conter tantos convidados.
Alguém, misericordiosamente, lembrou-se de abrir as portas do cinema, que davam para o saguão e estavam trancadas.
A multidão despencou para dentro, como as águas de uma represa subitamente rompida.
A rainha e o príncipe jantavam no balcão do primeiro andar, acompanhados pelo governador e senhora, além de uns poucos escolhidos.
Depois o casal real desceu a escadaria da direita para cumprimentar os presentes.
Não estávamos em Londres, nem na corte… não deu certo, e as 21h00 os soberanos, afogueados, subiram para dormir.
Chegou o Juca Chaves, atrasado, e perguntou-me pela rainha. Ouviu a resposta e saiu, gabando-se:
– Foi só eu chegar e a rainha foi para a cama!
Uma hora depois, eu e a Raphaela, famintos, subíamos a Rua Pamplona, em busca da pizzaria do Paulino.
Já estava fechada.
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