Meu pai, todos esses anos eu vivi aqui, sabendo que você estava lá. De vez em quando eu dava e recebia uma “noticiazinha”. Às vezes pensava em você e me lembrava do tempo que vivemos na Rua Mairinque, Vila Mariana. Eu ficava esperando você chegar do trabalho com o chocolate que você nunca esquecia. Lembro-me dos passeios no Parque Ibirapuera no domingo, colhendo flores no caminho de volta. Lembro-me das histórias que você inventava na hora de dormir: o cavalo que era “sheiffe”, o jacaré rajado que era o bandido, Bernadette, a namorada do cavalo. Na minha adolescência morávamos na Aclimação, em um prédio simples na José Getulio com a Tamandaré.<br><br>Agora, são mais de 20 anos de separação… Meu querido pai me desculpe à ausência, me desculpe à vacilação. Todas as vezes que eu poderia ter te visto, todas as outras escolhas que eu poderia ter tomado. Quando eu chorava por um namorado, quando eu só me preocupava comigo mesma, eu não sabia, que meu tempo com você estava contado e um dia iria se acabar. Que chegaria um dia em que por mais esforço que fizesse, eu nunca mais iria poder te ver, te falar, te tocar, te agradecer, te dizer que nunca me esqueci do seu amor, do seu carinho, a sua presença branda e confiável durante a minha infância e adolescência. Quietinho, você tomou conta de mim. Fez questão que eu tivesse tudo que precisava. Você nunca pediu nada. E eu, a eterna adolescentes, agora estou crescida. E agora, por você, nada pode fazer.<br><br>Obrigada meu pai.<br><br><br>E-mail: [email protected]