A marmita

No ano de 1961, eu trabalhava no centro de SÃO PAULO, na rua Dom José de Barros; naquele tempo era office boy, ganhava pouco… então para economizar, eu pegava o trenzinho da cantareira na estação TUCURUVI, ia até a estação MERCADO, dali ia a passos largos até meu emprego. Naquela época muita gente carregava marmita, pois almoçar em restaurante era muito caro. Mas, a minha marmita era um caldeirãozinho que minha mãe preparava com muito carinho, ela sabia que eu adorava feijão… principalmente do tipo que deixava o caldo vermelhinho e o complemento arroz, num dia bife de mistura, noutro ovo frito ou abobrinha refogada. Num desses dias lá vou eu com meu calderãozinho pendurado na mão pela alça e embrulhado com um pano de prato. Quando peguei o trem fui logo me enfiando no primeiro vagão e naquele dia parece que estava mais lotado que nos outros. No corredor, estiquei o braço para cima e, com o caldeirão pendurado no dedão, segurei no apoiador do teto. E no banco estava sentado em frente a mim um cidadão negro com um terno branco e chapéu de palha. Pelo modo de se vestir deveria ser fiscal da prefeitura. Graças a DEUS ele estava dormindo. Num dado momento um outro cidadão que estava próximo começou a olhar para mim e para o dorminhoco e dar sinal para eu olhar pro dorminhoco. Quando olhei…vi uma coisa espantosa. Uma senhora que também estava de pé a meu lado, encostou o braço na minha marmita e entornou. O caldo do feijão vermelhinho como ele só, começou pingar bem no paletó do dorminhoco. O paletó tava uma meleca só. Quando vi aquilo, tratei de me mandar para outro vagão e desci rápido na próxima estação que se chamava ARTEAL. Como ficou o dorminhoco não sei. Mas, cada vez que me lembro disto, rio bastante.
Hoje tenho 60 anos e tenho muita saudade de SÃO PAULO naquela época.