Estamos em Itaquera, bairro dormitório do extremo leste da cidade de São Paulo e o ano é 1960. Itaquera no subúrbio da Central do Brasil é um bairro pacato que dista aproximadamente vinte quilômetros do marco zero da cidade, a Praça da Sé. Habitada por gente simples, moradores antigos, donos de suas propriedades em sua grande maioria pequenas chácaras onde as famílias praticam agricultura e pecuária de subsistência, ou seja, criam galinhas, patos, coelhos, porcos e plantam milho, mandioca, verduras e outras hortaliças.
Moramos numa destas chácaras que fica na Vila Corberi em uma casa confortável que meu pai construiu aos poucos após ter comprado o lote da antiga fazenda do Sr. Jacome Corberi. Criamos galinhas e patos. Plantamos milho e mandioca conjugados com abóboras e morangas. Eu tinha nove anos, freqüentava o Grupo Escolar Alvarez de Azevedo no período da manhã e durante a tarde cuidava do quintal, das criações e efetuo as entregas para minha mãe.
Dona Nair minha mãe é uma excelente costureira, costureira de mão cheia. A máquina de costura é o local onde minha mãe passa a maior parte do tempo de sua vida, pois desde que me lembro sempre acordei e dormi com o barulho dos pedais que somente ficavam em silêncio por alguns minutos quando ela preparava as refeições ou atendia a uma freguesa. Uma das freguesas de minha mãe é a Dona Noca, que mora na Vila dos Campanelas, do outro lado da linha do trem da Central do Brasil.
Há alguns dias em conversa com minha mãe e falando sobre as criações do terreiro, em especial sobre as galinhas, Dona Noca comentou sobre uma de suas galinhas que botava ovos azuis. – Tem que ver Nair, falava ela, é um azul esverdeado muito lindo, não dá nem vontade de utilizá-los na cozinha. – E a gema, perguntou minha mãe, de que cor é? Fiquei totalmente interessado pela conversa e me aproximei a tempo de escutar a resposta. – Normal Nair, amarelo escuro, não dá para notar diferença quando comparado com os demais. A conversa terminou ai.
Na semana seguinte minha mãe me mandou levar o vestido da Dona Noca que estava pronto, e junto com o vestido embrulhado em papel manilha ela encaminhou a conta, com o preço dos aviamentos e da mão de obra. Peguei um atalho passando por dentro da chácara do Seu João das Vacas, e pelo caminho ia relembrando a conversa sobre o ovo azul. Bati palmas no portão da casa e lá veio Dona Noca com seu andar balançante carregando os seus mais de cem quilos. Entreguei o vestido e a conta e quando ela já ia se virando tomei coragem e perguntei.
– Dona Noca a senhora poderia me mostrar um ovo azul? De pronto ela me mandou entrar até a cozinha, onde em uma cesta para ovos feita de contas de Santa Bárbara estavam os ovos azuis, misturados aos vermelhos e aos pintadinhos. Realmente eles eram lindos, azuis turquesa, pouco menores que os outros. Perguntei sobre como era a galinha, e ela falou que era uma franga de primeira poedura, igual a todas as demais galinhas do quintal e que era a única que botava ovos azuis. As demais galinhas suas irmãs botavam ovos normais.
Contei para minha mãe sobre os ovos e sobre a galinha e ao mesmo tempo manifestei meu desejo de ter uma galinha que botasse ovos azuis. Sem saída ela me prometeu que assim que uma de nossas galinhas entrasse no choco compraria alguns ovos azuis da Dona Noca e botaria para chocar em casa, porém não poderia garantir que nasceriam galinhas. E se alguma fosse galinha não poderia garantir que ela botaria ovos azuis.
Agora restava esperar que uma galinha ficasse choca e a técnica para isso é não retirar todos os ovos do ninho deixando sempre os últimos seis. Escolhi a galinha que eu mais gostava em nossa criação, a carijó amarela, sim carijó amarela, pois o mais comum entre as carijós é a preta e branca. Ela bota numa velha coelheira em desuso que fica perto do chiqueiro. Passei a numerar seus ovos para retirar do ninho sempre os mais antigos, aqueles botados há mais de seis dias e mantinha sempre no ninho, para induzi-la à choca os seis ovos mais frescos.
Não demorou muito e após dois meses e meio a carijó amarela começou a mudar seus hábitos, ou seja, passava mais tempo no ninho e seu cacarejo ficou mais rouco, ficou agressiva e atacava até os cachorros que se aproximavam de seu ninho. Ela estava choca, não havia mais dúvida.
A ansiedade, que me é peculiar, tomou conta de mim e passei a cobrar de minha mãe a compra dos ovos azuis da Dona Noca, ou melhor, da galinha da Dona Noca, ou melhor, da galinha criada pela Dona Noca.
No domingo logo cedo fomos comprar os ovos. Pretendíamos comprar apenas meia dúzia e colocar mais meia dúzia dos ovos da carijó para ela chocar, pois se colocássemos todos azuis ela poderia rejeitar os ovos. Após as palmas lá veio vagarosamente sacudindo seu corpanzil à dona da galinha dos ovos azuis. Tomei a dianteira e logo fui falando. – Viemos comprar meia dúzia de ovos azuis para chocar.
Dona Noca falou que não poderia atender a nosso pedido, pois a galinha dos ovos azuis havia parado de botar e no momento só restava um único ovo azul esperando para ser fritado. Minha mãe então falou que seria melhor um do que nada e perguntou se o ovo estava “galado”, quer dizer, fecundado pelo galo. Sim exclamou com orgulho a mulher, dizendo que tinha um galo índio poderoso no quintal que não dava sossego às galinhas, principalmente às frangas.
Dona Noca não quis vender o ovo, ela apenas pediu em troca dois ovos de pata devidamente fecundados já que não existe o termo patado. Trato feito lá fui eu para casa segurando o ovo azul embrulhado em minha camisa como se fosse o ovo de ouro. Colocamos dez ovos para chocar, sendo um azul, seis da carijó e completamos com mais três de outras galinhas que tínhamos em casa. Perguntei para minha mãe porque dez ovos e não onze ou uma dúzia e a resposta veio respaldada na sabedoria popular.
Não podemos colocar número ímpar porque um irá gorar e não podemos colocar uma dúzia porque a carijó é pequena e não cobrirá adequadamente todos eles. Argumentação aceita, ovos chocando e o relógio da ansiedade ligado para esperar os vinte e um dias pela eclosão dos ovos e o nascimento dos pintinhos. Durante o tempo da choca eu adicionei mais uma tarefa a minha rotina diária que foi olhar o ninho antes de ir para a escola para ver se tudo estava correndo bem e se a carijó não havia rejeitado o ovo azul.
Minha galinha carijó amarela mostrou-se uma excelente chocadeira e somente abandonava o ninho para se alimentar e isso quando não havia mingúem por perto. Os dias demoravam a passar e toda manhã eu anotava na folhinha mais um dia circundando o mesmo com um lápis de carpinteiro do meu pai. Dia 26 de junho de 1960, acordei bem mais cedo que o normal, tão logo nossos galos começaram a cantar em seus desafios matutinos. Esperava ver os pintinhos bicando a casca dos ovos e se esforçando para saírem daquela casa perfeita construída pela natureza divina.
A carijó estava lá protegendo seus ovos como sempre e bicava tudo o que dela se aproximava. Empurrei a galinha levemente com o cabo da vassoura de palha e notei que os ovos estavam inteiros, porém já dava para escutar o barulho interno das pequenas bicadas dos pintinhos que agora iniciavam sua luta para livrarem-se da casca. Minha mãe falou para eu sair de perto que a galinha naturalmente cuidaria da descasca e ajudaria os filhotes a saírem dos ovos. Aproveitou para mandar-me à escola, pois não admitia que seus filhos perdessem aulas.
Minha professora dona Maria Emilia, notando minha ansiedade acima do normal quis saber o motivo e eu todo orgulhoso contei que naquele momento estavam nascendo os pintinhos em casa e que um deles nasceria de um ovo azul. Foi o suficiente para todos da classe rirem de mim e perguntarem se o pintinho seria amarelo ou azul. Ao chegar em casa corri para o galinheiro e de longe pude ver a carijó orgulhosa desfilando com seus pintinhos ao redor. Pude contar nove e não dez, e de imediato fui ao ninho para ver se algum ovo tinha gorado e em caso afirmativo que não fosse o azul.
Realmente havia um ovo goro, só que era um dos vermelhos. Uma ninhada de pintinhos ao redor da galinha choca é um espetáculo a parte e só quem já viu pode avaliar. Fiquei ali parado por algum tempo tentando descobrir qual seria o pintinho do ovo azul e não conseguindo identificá-lo, pois todos eram amarelinhos, com exceção de uns quatro que mostravam umas poucas penugens escuras. Chamei minha mãe para me mostrar qual deles havia nascido do ovo azul, porém fiquei surpreso quando ela falou que não tinha visto quando os pintinhos saírem dos ovos, pois estava ocupada terminando um vestido para uma festa junina.
Agora só restava esperar eles desenvolverem a troca da penugem pelas penas para realmente poder identificar suas cores definitivas e o sexo, se galinhas ou galos. Um mês se passou e quatro deles já mostram suas pequenas cristas e tinham como brincadeira predileta as brigas entre eles. Estes eram machos, futuros galos. Entre as cinco fêmeas duas eram carijós e três manchadas de preto e avermelhado com predominância para a cor preta lembrando uma descendência de galinhas índias, e a essa altura eu continuava sem saber qual era a filha ou o filho do ovo azul.
Normalmente nós comíamos os frangos quando completavam seis meses, pois já tínhamos dois bons galos no terreiro. As frangas ficavam para compor nossa equipe de galinhas poedeiras. No caso desta ninhada foi diferente e combinei com minha mãe que manteríamos todos os nove, pois se por acaso o filhote do ovo azul fosse um galo poderia gerar no futuro uma filha que viria a botar ovos azuis. Hoje é dia 25 de janeiro de 1961, aniversário da cidade de São Paulo e feriado local.
Acordo cedo como em um dia normal, pois tenho que tratar da criação, passarinhos, 25 gaiolas, patos, coelhos e as galinhas, a única diferença é que estamos em período de férias escolares e eu posso executar estas tarefas de forma mais tranqüila durante todo o primeiro período da manhã. Dou milho para as galinhas, farelo para os patos, capim para os coelhos e trato cada um dos passarinhos com suas comidas prediletas aproveitando para limpar as gaiolas. O dia esta ensolarado e aproveito para colocar as gaiolas espalhadas nas árvores do quintal.
E por algum tempo sento no degrau da escada da varanda e delicio-me com o cantar dos meus passarinhos que pareciam que estavam disputando uma competição de quem cantava mais alto e mais bonito. Agora vinha a parte mais dura das tarefas de todas as manhãs que é limpar as coelheiras e o galinheiro, que consiste em raspar todo o esterco gerado e colocá-lo no buracão onde depositamos todo o esterco e lixo orgânico da casa que serão utilizados como adubo nas épocas do plantio. Para concluir a jornada da manhã, agora só resta recolher os ovos.
Este trabalho é muito prazeroso e quem já teve esta oportunidade sabe o quanto é agradável. Recolhemos os ovos, e para cumprir uma simpatia que não sei de onde ela surgiu em minha família, ao recolher o primeiro ovo do dia colocamos o mesmo por alguns segundos sobre as pálpebras dos olhos, pois este ritual garante uma visão perfeita para toda vida. Recolho três ovos no primeiro ninho, no segundo a grande surpresa, dois ovos e um deles, embora bem pequeno, era azul.
Meu coração palpitou e pude sentir a adrenalina do prazer percorrer meu corpo. Peguei o ovo e corri até o quarto de costura onde estava minha mãe e com as mãos para trás perguntei a ela. – Mãe adivinhe o que eu tenho nas mãos? Um monte se sujeira falou ela. Como num passe de mágica mostrei a ela meu tesouro e pude ver sua alegria ao pular da cadeira retirar os óculos e pegar o ovo. Azul, azul exclamou e emendou de imediato a pergunta. Qual foi a franga que botou?
No dia seguinte ficamos de campana eu e minha mãe, e cada galinha que saía cantando do ninho lá íamos nós conferir se o ovo era azul ou vermelho. Descobrimos a dona da proeza, uma franga mestiça, preta com algumas penas douradas. Em casa as galinhas nunca tiveram nomes próprios e eram identificadas como a carijó amarela, a carijó preta, a vermelhona, a pescoço pelado e assim por diante. Seus nomes estavam atrelados às suas características.
Pela primeira vez batizamos uma galinha, que até então era identificada como a índia pequena, com o nome de Dona Noca. Dona Noca viveu vários anos em nosso galinheiro e botou muitos ovos, que nunca foram comidos e sim chocados para aumentar nossa produção de ovos diferenciados, porém nunca mais nasceu em nosso galinheiro outra galinha que botasse um ovo azul.
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