Nasci em 1933 numa maternidade particular que havia na Rua Santo Antonio. Filha de pai paulista (campineiro) e mãe paulistana, ambos descendentes de europeus (Áustria – Tirol e Itália – Sicília). Na época, meus pais moravam na Rua Duque de Caxias, hoje avenida. Nossa casa ficava atrás do salão de barbeiro do meu pai no número 672 e, graças à sua habilidade, aqueles fundos de armazém era o nosso lar, muito confortável, embora diferente. <br><br>Tínhamos jardim, galinheiro, balanço, horta, além de quartos, sala, banheiro e cozinha que ele foi ajeitando naquele árido espaço comercial. Tivemos também banho quente de chuveiro graças à sua criatividade: ele fez um com serpentina, fogo em álcool numa lata de goiabada. Antes disso, era aquela banheira de latão ou banho frio. Ele ensinou um vizinho latoeiro e muita gente pode ter esse conforto também antes do chuveiro elétrico se tornar acessível. <br><br>Não é a toa que o apelido dele mais tarde era Professor Pardal. Jamais mandou consertar qualquer coisa sem antes tentar, era extremamente curioso e observador, lia muito e fazia com as próprias mãos tudo que viesse facilitar a nossa vida. Morar na Duque de Caxias, com bondes passando, era complicado. As crianças não tinham ordem para sair de casa, embora eu nunca tenha visto um atropelamento. <br><br>Os bondes tinham um anteparo na frente que deve ter salvado muitas vidas. Além disso, a velocidade era incrível! Essa rua era a rota dos que vinham do interior para a Santa Casa. Grande quantidade de gente, à procura de tratamento, desembarcava nas estações da Luz e da Sorocabana, seguia pela Duque, depois pela Rua Maria Teresa (nome da Duque entre a Avenida São João e o Largo do Arouche), em seguida Amaral Gurgel, Santa Isabel e finalmente alcançava o grande hospital. <br><br>Mas nesse magote de gente havia também aventureiros, mascates, ciganos, golpistas, ladrões e os pais morriam de medo de que alguém nos levasse. Assim, éramos crianças de cidade criadas dentro de casa. Meu pai, menino criado no interior, nos dizia com muita pena que não estávamos tendo infância. Nada de subir em árvore, nadar no rio, cuidar de animais e etc. <br><br>Nós éramos muito felizes com o que tínhamos e à noitinha íamos brincar com nossos amigos no Largo dos Guaianazes ou no Largo do Arouche, com os pais e as mães conversando e descansando nos bancos. Nosso bicho-papão era a Avenida São João. Ninguém tinha coragem de atravessá-la sem um adulto junto, mesmo com as ilhas. Era movimentadíssima! Um terror! E as histórias que nos contavam eram terríveis!<br><br>Estudávamos no Grupo Escolar "Miss Browne" (êta nome difícil de escrever), íamos à Rádio Cultura assistir o Nhô Totico, freqüentávamos o Cine Coliseu no Largo do Arouche, o Royal na Rua Sebastião Pereira, o Paratodos na Rua Santa Efigênia, o São Pedro na Rua Barra Funda (não perdíamos os seriados), tomávamos um sorvete maravilhoso na sorveteria Motomu também na Sebastião Pereira. Íamos à missa aos domingos na igreja Coração de Jesus ou na Santa Cecília.<br><br>Quando o progresso foi chegando e a Prefeitura resolveu alargar a rua e transformá-la em avenida, tivemos que nos mudar. O nosso lado da rua é que foi desapropriado. Mas, como quase todos os moradores eram pequenos comerciantes e não poderiam perder sua clientela, fomos ficando por ali mesmo. Morei na Rua Barão de Campinas numa casa bem velha que estava escorada para não cair, mas papai deu um jeito. Era a grande crise da moradia na nossa cidade. <br><br>Para as crianças, a mudança foi boa, porque essa rua era tranqüila, arborizada com plátanos, pouco iluminada, quase sem trânsito e a gente podia brincar na calçada e até mesmo no meio da rua. Imaginem… O salão de barbeiro foi para a Alameda Barão de Limeira em um prédio novo e bem em frente às sedes de grandes partidos políticos. O do Getúlio e o do Adhemar, que ocupavam magníficos casarões. <br><br>Corria o ano de 1942 e, de repente, o prédio em que funcionava a nossa escola na Rua dos Guaianases foi solicitado pelo DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda, órgão do governo federal, poderoso na época). A escola foi para a Vila Pompéia e como era muito longe para nós (não dava para ir a pé) fomos transferidos para o Grupo Escolar "João Kopke", na Alameda Cleveland. <br><br>Para aprender o caminho havia algumas referências, como uma grande árvore na Rua dos Guaianases que pairava de um lado ao outro da rua e o largo Coração de Jesus. Tínhamos que andar bastante, mas o que nos assustava na época eram apenas os cachorros vadios, nem sinal de cracolândia… Não foi fácil nos integrarmos de repente numa nova escola, mas o nosso diretor Pedro Augusto Gomes Cardim Sobrinho e muitos professores como, Helena Fenili, Ermelinda Rubio, foram conosco e tínhamos costas quentes. <br><br>Alguns nomes de colegas me vêm à mente: Maria Luiza Podboy, Iracema Shibata, Geny Wada, Eneida Martins Seabra, Elza Olga Benko, Frida Mayerovitch (onde estarão?). Nas festas da escola, nosso diretor prendia a atenção de todos com seus discursos. Cantávamos com gosto nos corais, declamávamos… Era legal! Um trabalho escolar maravilhoso que fizemos foi uma pesquisa sobre aquele monumento imponente que ficava na Avenida Tiradentes na entrada da Rua São Caetano. <br><br>Ficamos tão interessados nos monumentos da cidade que visitamos muitos outros. Nossos pontos de referência eram: as estações da Sorocabana e da Luz; a Rua Santa Efigênia de grande comércio; a Avenida São João com sua imponência e os lindos postes de iluminação; o largo do Arouche e o dos Guaianases; a Editora Civilização Brasileira, na Rua dos Gusmões (onde conheci Monteiro Lobato); o Palácio do Governo nos Campos Elíseos; o Centro de Saúde, na Rua Dino Bueno; nossas escolas, sendo que a Caetano de Campos era nosso sonho de consumo.<br><br>A estação de bondes na Alameda Glete; a Rádio Cultura; o restaurante Papai, perto da Praça Júlio Mesquita; a Salada Paulista na Avenida Ipiranga; a sede da Guarda Civil, num lindo casarão cercado de jardins, na Barão de Limeira; os bombeiros na Barão de Piracicaba; os casarões maravilhosos dos barões do café; as igrejas Coração de Jesus e o colégio anexo, Santa Cecília, Igreja Batista (acho que a 1ª de São Paulo), cujo pastor era um médico, o Dr. Tertuliano Cerqueira, que morava na Rua Helvetia e atendia muita gente com grande dedicação. <br><br>Era aquele desaparecido médico de família que sabia tudo sobre seus clientes. Nessa rua havia também o Instituto Nacional do Tracoma; no largo do Arouche havia o Serviço de Saúde Escolar, onde praticamente todos os meus amigos e eu mesma, fomos submetidos à amigdalectomia, usual na época. Fomos manipulados com a promessa de que poderíamos depois tomar sorvete à vontade. A operação era um terror, não me lembro de anestesia, não… <br><br>Havia também, não sei em que rua, o Serviço Dentário Escolar, em que sentávamos num grande banco e íamos mudando de lugar à medida que éramos chamados e ficávamos ouvindo os gritos dos colegas lá dentro. Isso é tortura da boa… Meu sonho era fugir daquele banco. Parece-me que durante a guerra (a 2ª Grande Guerra) não havia mesmo anestesia disponível e eles achavam que não era necessário em dentes de leite. Vida de criança não era fácil, não!<br><br>Nossos passeios aos domingos e feriados eram: piqueniques no Horto Florestal, para o qual tomávamos o trenzinho da Cantareira na Rua João Teodoro, aquele que ficou celebrizado como "trem das onze"; visitas ao Jardim da Luz e ao Museu do Ipiranga; exposições no Parque da Água Branca; passeios na Praça da República (onde deixei cair meu lindo guarda-chuvinha no lago, ao apontar um patinho); o parque Trianon e a linda vista da cidade a partir do Belvedere; <br><br>Ir buscar as pílulas do Frei Galvão no Mosteiro da Luz e lá agradecer ou pedir graças; visitar a Catedral na Praça da Sé e o centro; assistir missa na igreja de São Bento ou na igreja de Santo Antonio, na Praça do Patriarca. Lembro-me que, na galeria abaixo dessa praça, meu pai doou um dia de trabalho, para o que eu acredito ser uma das primeiras campanhas de fundos para o combate ao câncer. <br> <br>Nas férias, íamos de trem visitar parentes espalhados pelo Interior: Jundiaí, Campinas, Vinhedo (Rocinha), Valinhos, Atibaia, e Santos naquele trem com cremalheira para descer a serra. Que emoção a viagem e o mar, a vista do Monte Serrat, a balsa para o Guarujá e a Bertioga, e o sofrimento com os borrachudos, com predileção pelo meu sangue. <br><br>Bom, agora que comecei percebi que lembro ainda de muita coisa, procurarei escrever sempre um pouquinho. É muito bom recordar e hoje dou graças por não ter resistido tanto a este recurso de comunicação que me assustou muito no começo. Sou ainda uma analfabeta digital, mas já estou melhorando. E como diz a canção, recordar é viver!<br><br><br>E-mail do autor: [email protected]