Fatos históricos contados e averbados por documentos são marcantes para desvendar mistérios que ficam por vezes obscuros. Ao possuir maiores informações da história transmitida, surge uma série de indagações presumíveis, da qual pode resultar uma dedução.
Ao descortinar a história, nos aproximamos da citação de um rio denominado Geribatiba, o atual Rio Pinheiros, que por certo não possui nenhuma semelhança com o Rio Jurubatuba, com sua nascente na Serra do Paranapiacaba. O Rio Pinheiros teve sua sinuosidade alterada, contornando a margem de Santo Amaro que, diga-se, também é a mais antiga vila do planalto, anterior até à cidade de São Paulo de Piratininga. À beira do rio, a madeira, combustível básico das forjas, e o minério a céu aberto eram transportados rapidamente do litoral de Santos, com vilas prósperas, construídas às margens de rios ou litorâneas¹.
Assim as forjas, que hoje denominaríamos fábricas, estavam situadas nas terras de Afonso Sardinha que, embora fixado em Santos, possuía lá seus interesses no planalto e aqui tinha morada, em Ubatá (atual Butantã). Uma gleba de terra naquele tempo incluía léguas e léguas de distância, até perder-se de vista. Abrangia o “Borapoeira”, tornando-se depois Ibirapuera e que, devido à devoção portuguesa a Santo Amaro, já deu muitas histórias maravilhosas, nascidas da fé, erigindo muitas igrejas e capelas. Havia uma capela de Santo Amaro de Ibirapuera referenciada em 1605, anterior à fábrica de ferro datada de 1607 nos assentos de Martin Rodrigues Tenório: “O engenho de Ferro começou a fundir quinta-feira a 16 de agosto de 1607 ao qual possuíram por nome Nossa Senhora de Agosto que é a Assunção Bendita e seu dia 15 do dito mês”².
A implantação da forja foi a passos lentos, pois parte do equipamento perdeu-se na viagem marítima, talvez provindo da metrópole portuguesa ou de seus consórcios com holandeses ou ingleses. Citava-se que Diogo de Quadros era provedor das minas, tinha poucas posses e ia devagar com o projeto, mas acabá-lo era importante, pois ali havia muito metal de ferro.
O equipamento era composto de dois malhos de 175 quilos, duas argolas de mesmo peso, duas chapas cada de 30 quilos e duas de 60 quilos. Tudo perfazendo a soma de investimento de 36 mil réis³.
Não havia mão de obra especializada, e era tudo lento, demorando quase dois anos para sua implantação. A produção tornou-se dispendiosa, o ferro era produzido a custo de 4 mil réis o quintal, quando valia só a metade. Queixava-se Diogo de Quadros da baixa produtividade dos “índios maramomis” na produção de carvão e o serviço não se desenvolvia como “Sua Majestade” pretendia, perdendo seus reais quintos, imposto da produção efetiva.
Novos sócios alavancaram o empreendimento, como o próprio marquês das minas, Dom Francisco de Souza, e o seu filho mais velho, Dom Antonio de Souza.
Assim, fato contado não é fato consumado, fazendo-nos divagar que à margem oposta ao Rio Pinheiros pode estar enterrada a história do “primeiro engenho das Américas”, anterior ao engenho de Araçoiaba, da Fábrica Real do Ipanema. Podem ter existido antigas vilas, arraiais, núcleos pequenos de grandes homens, que viram antes de nós, os morros atuais do bairro Jardim São Luiz e seu rio, antes sinuoso, a conter um volume imenso de água e, ao lado, as belezas do sítio Guarapiranga, circundante como um jardim de matas verdejantes.
História e sonho se confundem, é bom sonhar.
¹ HOLANDA, S. B. (1948). A Fábrica de Ferro, DIGESTO ECONÔMICO, nº 38. pp. 78-81.
² Idem
³ Ibiden
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