Que saudades da Dona Amélia (não é aquela da marcha carnavalesca não). O tempo passou tão depressa, quem me dera se pudesse voltar o tempo outra vez e retornar àquele passado em que éramos tão felizes. Estávamos no começo da década de 1950. Lembro que meu pai tinha voltado da Europa onde passou três meses visitando seus parentes na Espanha. Era o mês de novembro e como ele era taxista tinha dois carros que eram dirigidos por dois motoristas no turno da noite, e na troca de motoristas um deles, o Bráulio, fez uma pergunta ao outro: “Oh Mane! Você viu o novo restaurante que abriram no Largo do Arouche? Muito bom! E só de massas, se chama “O Gato Que Ri”, se come muito bem e é barato. As massas são sempre “al dente” porque o movimento é tão grande que elas nunca ficam passadas demais. É um restaurante bem pequeno, mas se come uma massa com uma carne braseada e salada verde que é uma beleza, e a lasanha verde é também, muito boa mesmo”. E eu só escutando, pois, embora com sangue ibérico, meu prato preferido sempre foi a massa italiana (já me vi sendo maltratado em Paris por perguntar em inglês a um parisiense onde tinha uma cantina italiana por perto). Mas, não perdi tempo e logo fui pedindo o endereço do dito restaurante.
Nessa época, eu era adolescente, tinha 16 anos e trabalhava na Livraria Saraiva e o Sr. Joaquim Saraiva me tratava como um filho e todos os sábados no fim do expediente ele dava 50 cruzeiros a mim e ao meu primo Paschoal, assim como se fosse uma mesada, e tínhamos fora isso um ordenado de $500 cruzeiros mensais. Lembro saudosamente das primeiras visitas que fiz ao “Gato”, coisa que se tornou depois corriqueira, pois todos os sábados à noite saia de casa no Braz, pegava o ônibus Estações 5, que subia a Rangel Pestana e era um circular que me deixava em frente ao restaurante. Na volta, pegava o Estações 6, que fazia o trajeto ao contrário e mais curto.
O restaurante, naquela época, só tinha um balcão retangular de pedra rústica com bancos redondos e sem encosto. A cozinha era no fim do balcão, onde por uma abertura diminuta (mal se podia ver o cozinheiro) se passavam os pratos prontos para serem servidos. Entre o balcão e a parede do lado direito de quem entrava se ia até o fundo onde havia umas quatro ou cinco mesas pequenas servidas por um garçom. Na parede, uma foto emoldurada de um gato rindo e em baixo dela uma frase: "mangiando si sana". Logo na entrada, um pequeno balcão em que se servia o café expresso incluso na refeição e o caixa, que era o Sr. Jacinto, esposo da Dona Amélia Mazotti Montanari.
No balcão, quem servia os clientes era a própria Dona Amélia, sempre com aquela simpatia e com aquele peculiar sotaque italiano tão gostoso que era só dela. Junto a ela, às vezes, estava a Maria José ou a Rose, ou então o saudoso Alcides de Souza, que com o passar do tempo se tornou meu amigo. Lembro que, a princípio, ia com meu dinheirinho contadinho, mal dava para pagar a refeição e o ônibus Estações, ida e volta. E por alguns sábados seguidos eu comia minha massa (quase sempre o Talharini, quando disponível), minha carne braseada com salada verde e tomava minha Crush (refresco de laranja popular na época) e pedia a conta. E sempre depois disso a Dona Amélia insistia, naquele sotaque gostoso: "No vá come um pudinginho figlio mio?". Ela se referia ao pudim de leite que acompanhava a refeição na época. Mas eu sempre dizia não, porque pensava que teria que pagar separado e, como disse, ia com meu dinheiro contadinho. Até que um dia, levei um dinheiro extra que meu avô me deu e matei a vontade. E como ele era gostoso… meu Deus! E, ao pedir a conta, vi que ela não havia incluído o pudim. E, ao lembrá-la sobre isso, ela me disse: “No… no… figlio mio já esta tuto incluíto na conta”. Não preciso dizer que eu queria morrer.
Ah… quantos pudins eu deixei de comer e ainda tive que disfarçar, pois só depois é que olhei para a tabela de preços que estava estampada na parede de entrada ao lado do seu Jacinto no caixa e vi que o pudim estava lá. A Dona Amélia era tudo naquele lugar, o dia começava bem cedo para ela, pois o segredo daquelas massas caseiras, os molhos, de tomate e o bolonhesa, eram receitas suas, e era ela que cozinhava, assim também como o preparo das massas, estava sempre com a sua supervisão e com a ajuda de alguns nordestinos ela, com toda aquela simpatia, trabalhava noite e dia.
O tempo passou e, depois que me tornei taxista, me tornei um cliente mais assíduo e chegou uma época, depois do falecimento do meu pai, que eu jantava todas as noites naquele estabelecimento. Depois das 10h da noite tinha meu lugar cativo no último banco ao lado da cozinha, onde o Paraíba ou o Zé Bento, os cozinheiros, sempre me davam o bom tratamento. Como eles sabiam que eu tinha preferência pelo Talharini eles punham a massa para cozinhar enquanto eu esperava saboreando minha cerveja. E como eu chegava quase sempre depois das 10h, lembro que uma noite no telefone público da entrada ao lado do balcão do café tentei ligar para o programa do Morais Sarmento que eu ouvia todas as noites e com muita sorte consegui ser atendido por ele e, falando ao vivo na Rádio Bandeirantes, disse a ele onde estava, e que o Paraíba, o Zé Bento, o Alcides, a Dona Amélia mandavam aquele abraço e pediam que ele tocasse para eles “O Chão de Estrelas”, com o Silvio Caldas, e aí o Morais elogiou o restaurante e enviando abraços a todos eles nominalmente. Como o programa era muito popular, por alguns dias, muitos clientes que haviam escutado a menção do Sarmento a todos comentavam sobre o acontecido. E eu acabei, por fim, sendo apelidado pelos garçons e cozinheiros de Morais Sarmento e recebendo um tratamento muito especial de todos eles dali por diante.
Fui cliente até 1965, quando sai de São Paulo, mas em todas as minhas viagens que fiz nunca deixei de voltar a visitar e deliciar aquelas massas tão saborosas. Lembro da última vez que vi Dona Amélia com vida. Ela estava sentada com o seu advogado em uma das mesas e eu parei para cumprimentá-la e ela me apresentou a ele dizendo que eu era um cliente desde a minha adolescência e que residia a muitos anos no exterior. A Dona Amélia foi assassinada brutalmente por alguém que a conhecia muito bem e no andar de cima do restaurante, onde residia, talvez a mando de alguma pessoa da própria família, ninguém sabe com certeza, pois nunca conseguiram provar nada.
Lembro que logo após a sua morte, em uma visita que fazia a São Paulo, fui jantar no “Gato” e o já falecido Alcides de Souza, que era meu amigo dos velhos tempos, sentou na minha mesa e com os olhos cheios de lágrimas me disse que ele foi um daqueles que subiu ao apartamento porque estranhava a demora, naquele dia de ela descer ao restaurante, coisa que fazia corriqueiramente, e encontrou aquela cena macabra. Ele me disse que quem cometeu o crime foi maldosamente muito cruel, pelos ferimentos tão graves que provocaram a sua morte, essa senhora que era muito caridosa e não merecia ter tido esse destino tão perverso. Ele ainda quis ir mais adiante e contar alguma coisa que ele sabia, mas se limitou a me dizer que ele não podia falar mais. Mas, quase com certeza, ele tinha ideia dos culpados, pois ele era muito íntimo dela.
No final da história apareceu a filha da Dona Amélia que veio da Itália entrar na justiça para lutar pelo que lhe pertencia, pois ela era a verdadeira herdeira. Foi nessa época que o restaurante fechou por algum tempo e foi vendido a esses novos proprietários que me parece que são Gaúchos, e que fizeram aquela reforma, que tiraram aquele aspecto popular daquele restaurante que eu tanto frequentei e amei. Nesses dois últimos anos 11/12 em que estive em São Paulo, jantei no que era “O Gato Que Ri” e, sem querer desmerecer o que foi feito neste de hoje, senti muitas saudades daquele meu velho restaurante que me servia aquele Talharini ao molho de tomate ou a bolonhesa, aquela carne braseada (cupim) com salada verde e até daquele pudim de leite com creme de chantili que até hoje eu mesmo faço em minha casa, pois a saudosa Dona Amélia me deu a receita. Com todos os elogios que possa fazer ao novo “Gato Que Ri” eu preferia aquele de outrora, pois este ficou muito sofisticado para meu gosto. Que Deus tenha a alma de Dona Amélia sempre com muita luz e paz.
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