"Eitcha cabra arretado" aquele senhor José Vicente de Oliveira, junto com sua esposa Josefa. Ele era um alagoano bem atarracado, vendia galinhas e carne de porco na feira de domingo na Praça da Alegria na Vila Maria Alta. Ela era muito magrinha, cuidava de seus sete filhos: Dinete, Eudócia, Marinete,José Arcanjo, Luiz e Luiza (gêmeos) e o mais novinho, Mário.<br><br>Sua casa ficava no terreno bem em frente à minha casa na Rua dos Samurais no Jardim Japão, só que a frente da casa deles ficava virada para a Rua Mussumés, era uma casa muito simples, e põe simples ali, metade em alvenaria e outra metade em madeira. Possuía somente um quarto enorme que se dividia em sala e quarto e uma cozinha minúscula. O banheiro era menor ainda e ficava nos fundos da casa. Ali existia um vaso sanitário cercado por cimento que era mais um buraco onde se despejava tudo diretamente na fossa, costume comum em algumas casas da época.<br><br>O que faltava de espaço na casa sobrava no terreno. Na frente da casa havia um poço com sarilho (maquinismo composto por um cilindro suspenso por barras na extremidade, no qual se enrola a corda que sustenta um peso, no caso o balde de água) de onde a água para consumo da residência era retirada. Não havia muitos móveis. Toda aquela simplicidade era compensada pelo principal. Naquela casa, havia amor, uma família alegre, todos eram bem vindos. Dona Josefa, dispensava cadeira ou bancos, nós já estávamos acostumados a vê-la de cócoras, uma típica senhora do nordeste, com seu lencinho na cabeça, ralando coco, para fazer deliciosas cocadas. E ainda convidava cada um que chegasse a sentar por ali e ficar a vontade.<br><br>Como se já não bastasse seus sete filhos, ainda acolhia a vizinhança, eu, Neuzinha, Ilda, Cleuza, Zambra, Nêgo (meu marido) Babo, Sérgio, Elisabeth, Luiz Antonio e outros que não me recordo no momento, em meio ao som estridente do frevo que aprendi a dançar com aquele senhor bonachão, passávamos horas alegres. A música enchia o lugar, hora um xaxado, um baião, um frevo, um rock e nós como excelentes bailarinos (assim acreditávamos) trocávamos os passos de acordo com a música.<br><br>A acolhida ali era tão boa que eu, trocava de bom grado, um chuveiro elétrico e uma banheira por um banho de bacia, naquele cubículo que era o banheiro. Fazíamos uma fila em frente ao banheiro como se fosse um vestiário de um clube, enquanto uns pegavam a água no poço, outros tomavam banho de caneca. Uma água gelada de doer os ossos, no calor era maravilhoso, tudo valia à pena.<br><br>Uma de suas filhas, a Marinete, era unha e carne comigo, dançávamos juntas, íamos à escola, a missa, aos bailes, trocávamos confidências e segredos em fim, estávamos sempre juntas, gostávamos das mesmas coisas, nossos gostos eram tão iguais que bastava uma olhar para a outra, para que ambas começassem a rir sem que ninguém soubesse qual o motivo, somente nós o sabíamos. Às vezes, à noite, resolvíamos assustar alguém que vinha pela rua no escuro e para tanto arrumávamos uma meia de seda velha, enchíamos de trapos e com ela fazíamos uma cobra, que era colocada do outro lado da rua, escondida em uma moita mais alta. Era presa a um barbante, esticado até o outro lado, onde o mato escondia a galera, em silêncio absoluto… Ficávamos na espreita, só para ver os incautos correrem apavorados da falsa cobra que era acionada assim que alguém se aproximasse do local.Que farra! O pobre corria pela rua escura e nós ficávamos a rir até a barriga doer.<br><br>Lembro-me ainda do vizinho Ramon, que tinha uma plantação de abóboras. Os meninos pulavam a cerca de bambu e traziam a maior delas para fazermos com ela uma cara de fantasma. Colocávamos uma vela dentro e a posicionávamos no barranco, o mesmo esconderijo da cobra, quando aparecia alguém começávamos a uivar para assustar o transeunte que saia na correria.<br><br>Outras vezes, arrumávamos uma peneira e um vidro vazio e saíamos à caça de borboletas. Batíamos no mato com uma vareta e os pobres insetos saiam de seus esconderijos, era o momento da caça. Corríamos com a peneira e prendíamos os bichinhos que eram transferidos para os vidros e exibidos como um troféu pela proeza.<br><br>Meus amigos, ainda os tenho até hoje. Todos muito bem resolvidos, graças a Deus. Casamos,alguns tiveram filhos, outros estão solteiros estão.Quando nos encontramos para relembrar as coisas boas e histórias vividas em conjunto.<br><br>Hoje, nesse local, existem prédios requintados,ocupando todo o quarteirão onde outrora o capim barba de bode era a nossa paisagem preferida. Deitados na relva olhávamos o vento sacudir as paias do coqueiro que ficava logo acima do barranco, tombar o capim até torná-lo um tapete aveludado, fazer das nuvens formas de animais conhecidos. O sol, em tons dourados, descia sobre o capim e desaparecia por detrás do escadão que fica ao lado da Igreja Candelária despedindo-se para dar lugar a um céu estrelado e maravilhoso, onde era possível até brincar sobre a luz do luar.<br><br><br>E-mail: [email protected]