A caminho da Liberdade

Numa Festa – show do dia 7 que a TV Record fazia todo dia 27 de setembro, dia do seu aniversário – em que o governador Roberto Costa de Abreu Sodré teve que explicar o porque trouxe do Rio de Janeiro Américo Fontenelli, para dirigir o trânsito de São Paulo, deixando nossa cidade numa situação caótica. Era a entrega do premio Roquete Pinto. Nesse dia Jô Soares e Arnaud Rodrigues fizeram uma música, em que a letra foi feita de sopapo (na última hora) para aquele evento. Dizia o texto que para se chegar ao bairro da Liberdade, tinha que passar pela Ruas Paraguai, Rua Argentina, Rua Rússia, Rua Cuba, Rua Espanha, Avenida Portugal. Ou seja, ruas com nomes de países ditatoriais, numa cidade que também pertencia a um país bem ditatorial. O Brasil militarizado.
Para nós, pobres mortais brasileiros, para chegar a Liberdade (ser livre) tinha que tropeçar em muitos fios eletrificados pelo caminho. Assim foi na Praça da Sé, no primeiro de maio daquele mesmo 1967, quando de um comício programado pelos sindicatos, naquelas teimosas reivindicações que não davam em nada, a não ser dar credito a presidentes de sindicatos, meros pelegos, que eram uma espécie de gilete, cortando dos dois lados. Quando o palavrório estava esquentando tinha alguma coisa esquisita no pedaço. Já antevíamos que a coisa ia ficar preta. Em pouco tempo que os potentes alto falantes projetavam a voz de um membro de sindicato, veio um gaiato e cortou o fio do microfone com um alicate. A praça da Sé ficou muda por segundos. Retomando o burburinho pelas vaias. Logo em seguida uma pedra foi atirada. E que, por pontaria certeira, foi direto na testa do governador Abreu Sodré. Por incrível que pareça, um fotografo do Diário da Noite fotografou a trajetória de pedra. Pronto, a “festa” estava feita. Correria para todo lado, gente correndo sem saber o porque. Foi uma das muitas vezes que neguinho corria sem ser camelô, fugindo da administração regional da Sé. Anos depois já em 1984, quando os milicos já estavam mancos e caolhos, fui ao sindicato dos marceneiros onde era filiado, para acertar minha situação de mensalista. Gente eu pagava mensalidade. Não confunda com mensaleiro. Quando ia saindo, um diretor me deu um convite para a festa que os sindicatos iam fazer dia 25 de Janeiro de 1984, aniversário dos 430 anos da cidade de São Paulo na Praça da Sé. Junto com o convite um decalque retangular de vinte centímetros por cinco, daqueles de colocar no vidro traseiro do carro, dizendo: EU QUERO VOTAR, PARA PRESIDENTE.
Foi uma festa digna da grandeza da cidade de São Paulo. Muitos discursos. Foi ali que se pediu pela primeira vez que o povo brasileiro tivesse voz nas urnas para eleger o presidente da república. Sabe gente. Onde tem aglomeração de pessoas tem político no meio. E ali eles viram que se podia fazer algo para chamar a atenção dos militares para o Brasil sair da escuridão política. Já tínhamos algo a nosso favor. O presidente da república era filho do grande general Euclides de Figueiredo, um dos baluartes da revolução constitucionalista de 1932, embora fosse carioca. O presidente João Batista Figueiredo que se dizia órfão de pai vivo devido àquela epopéia, jurava que ia fazer do Brasil um país democrático. Levou muitas bombas pela cara, e encarou firme sua obstinação. Sendo assim ele afrouxou a corda para levar avante uma concentração em prol da liberdade democrática e consolidar a assembléia nacional constituinte. Foi ali que se iniciaram os comícios das Diretas Já. Aquela nossa festa sem muito propósito, realmente foi a semente. Saibam disso. O “dono do Brasil”, na época Ulisses Guimarães, veio com tudo para na esteira da nossa modesta festa. Ele não recorreu aos sindicalistas que iniciaram a festa, mas sim a mídia. Chamou Osmar Santos que estava no auge da fama como locutor esportivo, para ser o mestre de cerimônia. Doutor Ulisses ia todos os dias às cinco horas da manhã tirar Osmar da cama para encaminhá-lo para diversos lugares a fim de agitar a coisa. E a festa estava sendo cada vez maior. Em cada praça, milhões de pessoas se espremiam pedindo o voto direto. Os políticos da oposição estavam em alta. Muitos da situação também aderiram. Os ônibus da CMTC trafegavam de graça para o povo pobre poder ir até o centro da cidade. As emissoras de rádio e televisão, entravam na onda transmitindo. Exceto a TV Globo, que pertencia ao regime. Mas quando Fernanda Montenegro, contratada da Globo, chamou seus patrões a aderirem ao movimento, eles, timidamente começaram a participar da festa. E cada festa que me enchia de orgulho como anônimo, ter ajudado a começar aquilo que os políticos mascararam. E na hora de votar as diretas, os votos a favor não eram suficientes para dar ao povo as urnas tão requisitadas. Porque numa manobra escusa, faltou poucos votos para a maioria absoluta, e a eleição direta foi rejeitada na maior vergonha que o Brasil viveu em sua história. Depois de tudo consumado e, por linhas tortas (eleição indireta), o Brasil veio a ser democrático. Osmar Santos no programa Balancê da rádio excelsior, de sua iniciativa, se lamentava anos mais tarde de que, passado toda aquela “festa”, doutor Ulisses não havia lhe dado um telefonema sequer. Nós seres normais não devemos nos meter com políticos. Principalmente "raposas".