A Bela do Campo Belo

Ela sempre descia a Rua Edison, com seu passo tranquilo, seu corpo jovem e fragrante, deixando a graça e a beleza no seu passar. Descia esta rua e pegava a Rua Paiaguas, vinha direto para mim, para fixar seus olhos de abismo, em cujo vórtice me perdi um dia e de onde nunca mais voltei.

A Bela do Campo Belo era assim, vinha suave e de longe eu via e sonhava que, talvez um dia, fosse minha de verdade. Era assim que ela sempre vinha. Eu trabalhava ali, no famoso Jumbo Aeroporto, o primeiro hipermercado do Grupo Pão de Açúcar, onde na parte de baixo ficava o Car Center, grande loja de motos, carros e equipamentos. Às vezes, os amigos ricaços da família Diniz, dona do grupo, deixava em exposição seus carrões.

Lembro que foi ali, em meio a Lamborghinis, Corvettes e Porches que vi um dia, pela primeira vez, a Bela do Campo Belo ofuscar com seu olhar profundo estas máquinas reluzentes e cobiçadas. Para mim, naquele momento, vi que a única coisa que eu cobiçava era ela, seus olhos mágicos, seu corpo jovem e o possível amor que talvez nascesse.

Ela andava em meio às pessoas, em meio ao desejo que aqueles carros despertavam e, para mim, era como se apenas ela estivesse ali desfilando. Eu pensei, será que um dia vou ter uma namorada assim?

Sim, ela foi minha namorada, por três vezes nos encontramos no destino e por três vezes nos amamos. E seus beijos e abraços percorriam pela noite do Campo Belo, pela Vieira de Morais, Av. Ibirapuera, Rua Braz de Arzão, dentro do Jumbo, sentados furtivamente nas escadas. Como dizia o Poeta Maior: "na curva dessa escada nos amamos, lembras-te carne?"

Hoje ela vive comigo a cada momento. No seu olhar vejo meu rosto ainda jovem e no seu amor o sonho a cada instante renascido.

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