É tarde, eu já vou indo, preciso ir embora, até amanhã. Mamãe, quando eu saí, disse: “Bichinho, não demore em Braçanã!”. Este é um trecho da música de Luiz Vieira, composta no início dos anos 1950.
Ouvindo a música, vi que uma palavra contida na letra parecia com o nome de um bairro da cidade de São Paulo, o Jaçanã.
Aí me lembrei do menino do Jaçanã, meu colega de escola SENAI, do Brás. Era Sebastião (Tião), que morava no Jaçanã. Órfão de pai e filho de empregada doméstica, tinha orgulho da mãe que não se preocupava em arrumar outro homem e se dedicava ao trabalho para dar a ele uma vida melhor.
No curso profissionalizante, optou pela marcenaria, e na parte teórica, fazia o curso correspondente a um ginásio naqueles anos, 1954-55-56.
Com poucos recursos, ia estudar com roupas feitas por sua mãe quando chagava do serviço. Camisas de algodão ganhava das patroas, que eram dos maridos destas; grandes, a mãe de Tião remodelava ao corpo do filho. Quando era saco de farinha, às vezes tinha a logomarca da Sanbra (sociedade anônima do nordeste brasileiro) ou União(União dos refinadores, açúcar). Como não podia deixar de ser a gozação, era grande a parte de alunos que não tinha famílias com os mesmos problemas.
Tanto na parte prática como teórica, ele era muito bom: suas notas estavam acima dos demais, e nem era muito de ficar sempre de olho nos livros ou cadernos. Sebastião não era de ficar estacionado. Quando terminou o curso no SENAI, foi trabalhar na firma que o financiou os três semestres que ele ficou na escola. À noite, ia estudar mais queria ser um doutor.
Anos mais tarde, encontrei-o no centro da cidade. Depois daquele “puxa, quanto tempo…” que ele disse na Praça João Mendes. “Vou ao fórum levar essa petição, que precisa ser protocolado hoje sem falta”. O velho amigo Tião, agora é chamado de Dr. Sebastião Rodrigues da Silva.
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