Após haver escrito a história de uma senhora, alcoólatra ou psicótica, que perambulava pelas ruas de meu bairro aos idos de fins da década de 60 do passado século, encontrei-me com o filho do "seu" Chico, o dono do bar da Rua Abílio Soares, onde hoje está uma loja de materiais de construção, que se recordava desta lastimosa figura, e lembrou-me que pululavam estórias – com "e" – acerca desta personagem real. Vasculhei meus "arquivos mnemônicos" e lembrei-me de algumas, que pelo conteúdo, que renderia interessantes análises sociológicas, talvez valha a pena conhecer.
Para os amigos leitores que não houverem lido a história "A Bêbada do Paraíso" neste portal, segue um pequeno resumo: em fins dos anos 60, ao fim da tarde e começos da noite, por vezes, víamos uma senhora negra errando pelas ruas de nosso bairro, o Paraíso. Nunca soubemos ao certo quem era, nem de onde vinha, tampouco o que a levara à mendicância insana ou ligada ao alcoolismo. Porém, corriam estórias, de vários matizes, salientando o momento que vivíamos. A melancolicamente romântica: criada de uma família abastada, apaixonara-se e engravidara do filho dos patrões que, ao saber, mandaram o filho estudar na Europa e tiraram-lhe o filho.
A desgraçada, enlouquecida, vagava pelo Paraíso. A versão tragicamente realista: casada em tenra idade, com um marido violento, tivera diversos filhos, todos fugindo dos maus-tratos paternos, pois o marido violento sói ser cruel com os rebentos. Até que ela também se foi. Pobre, negra, sem instrução, apelava ao meretrício para custear a aguardente: só assim para "remediar" tantas agruras. A favorita da criançada, que aos azos que corriam se acotovelavam às matinês dominicais ou vesperais de sábado, nos cinemas que exibiam "O Flash", ou à frente dos televisores preto e branco par torcer para que o National Kid derrotasse mais uma vez os incas venusianos: fora abduzida por alienígenas que fizeram experiências com ela. Sua personalidade se teria desestruturado com isto.
Por fim, mas não menos interessante, a politicamente engajada: rapariga pobre, mas politizada e defensora da democracia fora taxada de subversiva naqueles tempos de Ato Institucional Número 5 (o famigerado AI-5), presa e torturada. Enlouquecera em virtude dos trucidamentos sofridos. Certo dia desapareceu sem deixar rastros. Não tardou a surgir hipótese, na mesma linha das estórias. A romântica: o filho, do qual afastada desde cedo, a encontrara e levara para morar consigo. A realista: falecera de cirrose. A dos ufólogos mirins: os alienígenas a levaram para seu planeta. A politicamente engajada: o esquadrão da morte dera um fim à pobre.
Como junguiano e antropólogo, não oculto meu apreço aos contos tradicionais e por isso outorgo-me o direito de criar uma estória desta história: era uma princesa haussá, que devido aos maus-tratos impostos às suas escravas, fora condenada por Allah a ser transportada a São Paulo dos anos 60/70 para expiar suas culpas passando pelos impropérios dos que a insultavam. Não era lunática: falava em sua língua materna, incompreensível para nós. Por fim, arrependida, fora transportada por Allah à mítica cidade misteriosa de Manoa, onde se casou com Canga Zumba, o fundador do quilombo dos Palmares.
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