A batalha que não houve

Na semana passada, nós descíamos caminhando pela Cardoso de Almeida, admirando mais uma vez o magnífico edifício do Colégio Santa Marcelina, com seu marcante estilo Gótico Lombardo, quando de repente começamos a recordar um episódio que ficou durante muitos anos marcado nas Perdizes como a batalha dos cadetes.
Corriam os anos 50, os famosos anos dourados, quando as moças e rapazes se reuniam semanalmente em festinhas e bailinhos nas casas do bairro e, vez por outra, em salões de festa, como o Monte Líbano, Odeon, Pinheiros, entre outros.
Normalmente, todos eram conhecidos ou levados à festa por um dos amigos da família, o que garantia o bom desenrolar dos eventos, sempre supervisionados pelos pais da anfitriã.
Foi num desses bailinhos de final de semana, realizado na espaçosa residência de uma das moças, situada bem em frente à entrada do externato do Colégio, onde atualmente existe um enorme edifício de apartamentos chamado Dinalba, que tudo começou.
Era normal os rapazes do bairro ou do grupo, onde normalmente havia as irmãs de alguns, terem ciúmes das meninas do grupo e, assim, tentarem impedir que rapazes de fora se aproximassem e entrassem na concorrência de possíveis namoricos.
Assim aconteceu naquele dia.
Os jovens bailavam ao som das grandes orquestras famosas da época como Tommy Dorsey, Benny Goodman, Glenn Miller, The Mammas and the Pappas, alguns trocando pequenos sussurros nos ouvidos, até o momento em que chegou um primo mais velho da anfitriã, acompanhado de amigos, elegantemente fardados, da Escola de Cadetes de São Paulo.
Bastaram apenas alguns poucos segundos para que arrancassem suspiros das garotas, que logo começaram a disputá-los para dançar, gerando uma revolta geral na rapaziadinha do bairro, que se viu ameaçada em seu prestígio.
Não custou muito para surgirem pequenas provocações entre os presentes, pequenos empurrões e atitudes provocadoras pelo grupo da festa contra os cadetes presentes e, como não podia deixar de ser, a seguir acabaram com a festa, numa briga enorme, onde se viam olhos arroxeados, camisas rasgadas e rostos arranhados de todo lado.
Claro que o pior sobrou aos cadetes que, em minoria, não tiveram chance de se defender e tiveram de abandonar a festa às carreiras… Mas, prometendo vingança, ao som de muitas vaias do grupo presente!
No dia seguinte, um domingo, o bairro das Perdizes amanheceu parecendo uma praça de guerra, coalhado de alunos da Escola de Cadetes, vasculhando as ruas da região à caça dos rapazes da festa.
Preciso contar o final?
Como num passe de mágica, não se viu um único rapaz do bairro caminhando pelas ruas e os cadetes, depois de muito esperarem e procurarem, desistiram da porfia.
Foi assim que uma batalha prometida deixou de acontecer por obra e graça dos sumidos valentões do bairro.

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