De São Judas a Pinheiros, um passeio domingueiro…

Em 1947, morávamos na Av. Fagundes Filho, em São Judas (ou melhor, Vila Monte Alegre). Eu tinha então sete anos. Meu avô morava em Pinheiros, na R. Simão Álvares com minha tia, havia ainda uma tia avó ali perto, na Fradique Coutinho. 
 
Às vezes (não muitas) íamos visitá-los. Nossa aventura começava antes do almoço, ali pelas onze da manhã. Naquele tempo, até meados da década de 50, não havia transporte coletivo entre os bairros. Para ir a qualquer lugar da cidade, sempre precisávamos passar pelo centro.
 
A “viagem” domingueira começava com 500 metros a pé pela poeirenta Av. Fagundes Filho (na época, Felício Fagundes) até a Av. Jabaquara. Para o centro, o ônibus 12, que vinha do Parque Jabaquara. 
 
Nessa época, o bonde da linha 23, Domingos de Morais, só chegava até a Praça da Árvore. Em toda extensão da avenida, até chegarmos na R. Domingos de Morais, somente a avenida era asfaltada, todas as transversais eram de terra. O ônibus chegava ao centro vindo pela Av. Liberdade, entrando na Praça da Sé, passando em frente ao Palacete Santa Helena, e parava bem em frente às escadarias da Catedral, ainda sem torres. Para retornar, dava a volta pelo outro lado da Catedral.
 
Para tomar o bonde 29, Pinheiros, ou o 28, Fradique Coutinho, precisávamos atravessar toda a R. Direita e o viaduto do Chá. Aí, o trajeto inesquecível: logo no começo da rua, à direita, a Joalheira Worms, com vitrines imperdíveis para minha mãe. Depois, na esquina da Quintino Bocaiuva, a Casa Bevilacqua, loja de discos e instrumentos musicais. 
 
Logo em seguida, à esquerda ainda, o inesquecível Bar Viaduto. Comprido, chique, com fileiras laterais de mesas com poltronas duplas estofadas, separadas por muretas, e o restante da área central com mais mesas. No fundo, um mezanino com uma orquestra, músicos de smoking, violinos e piano. Ali, nosso imperdível almoço: empadinhas, coxinhas e de sobremesa, os sorvetes, cassata ou spumone. Voltando à rua, à esquerda, o Cine Alhambra, e as lojas populares (Americanas, Brasileiras e Reunidas), e do outro lado os magazines (Casa Slopper, Galeria Paulista de Modas, Tecelagem Francesa).
 
Adentrávamos a Praça do Patriarca cruzando a Rua São Bento. Nesta, de frente para a Praça, o prédio da Rádio Cruzeiro do Sul; à direita, quase na esquina da Rua Libero Badaró, uma loja de brinquedos, imperdível na época de Natal: a Casa São Nicolau. 
 
Chegando ao viaduto, o Palacete Prates, que compunha a paisagem do Anhangabaú, que seria destruída 20 anos depois. Atravessado o viaduto, na Xavier de Toledo, finalmente, o ponto do bonde em frente o prédio da Light e do Mappin Stores, e o Theatro Municipal.
 
Já no bonde, a subida da Consolação, o cine Ritz (onde hoje é o Belas Artes), a Av. Dr Arnaldo, os cemitérios e a descida da Teodoro Sampaio. O bonde 29 ia até o Largo de Pinheiros. Já o 28, entrava na Fradique, só um quarteirão, que era calçado. 
 
Só havia um par de trilhos, o bonde não manobrava. Para voltar o condutor (ou motorneiro) trocava os comandos, a traseira virava frente, e o bonde voltava! Da Rua Cardeal Arcoverde para cima, em direção à Vila Madalena, a Fradique era terra… Para a casa do meu avô, descíamos na esquina da Simão Álvares, e subíamos até sua casa, entre a Cardeal e a Aspicuelta. A rua também era de terra. A casa, daquelas simples e típicas ainda encontradas em bairros antigos da cidade, com a entrada lateral após subir-se uma escadinha.
 
Após o lanche, a conversa dos mais velhos, o encontro com o primo e primas, a volta. Da passagem pela Rua Direita, a lembrança de um costume dos sábados à noite e tardes/noites de domingo, que perdurou até o fim dos anos 50: as calçadas dessa rua eram tomadas por uma grande maioria de negros, com suas roupas domingueiras, sapatos de duas cores, gravatas e lenços coloridos, um jeito meio malandro de vestir, enquanto a maioria de moças, faceiras, desfilava ao longo da rua. Até o fim dos anos 50 esse encontro perdurava. Depois, não sei. Nunca mais passei pela Rua Direita num sábado à noite ou domingo à tarde…