João Cem

A lembrança passou-me ofuscante diante dos olhos, como se um relâmpago explodisse.
 
Foi isto mesmo o que vi, na última vez em que estive no Joan Sehn, a velha choperia conhecida pelos populares, exaltada por seus chopes como “João Cem”. Estávamos saindo dali. Noite chuvosa, e o porteiro abriu um grande guarda chuva para nos acompanhar até o carro. Foi então que o relâmpago estalou, cegante, como se tivesse acertado a ponteira do guarda chuva, ali mesmo. Saltamos para trás.
 
Não passou de susto, e o próximo viria com a notícia: o venerado estabelecimento, mais antiga choperia de São Paulo, havia fechado.
 
Postada em Moema desde 1937, fora fundada por Joan Sehn, imigrante austríaco. Eu a conhecia de longa data, mas evidentemente curta diante de sua idade. Foi nos idos dos anos 60 que me levaram a provar seu belo chope e ótimas tabuas de frios. Era então bem simples, com paredes de madeira, quase um barracão.
 
Quando voltei, já era bem maior e sofisticada. Fomos ali muitas vezes. O que era facilitado pelo amplo estacionamento, que tinha ao lado e o, então, tranquilo bairro. Muitas vezes um piano tornava ainda mais agradável o ambiente.
 
Na entrada, suas chopeiras e máquinas importadas de cortar frios, grande variedade de bons queijos. Um dos melhores pontos de Moema, famosa por suas churrascarias e cervejarias. Lembro-me de certa vez, no final de 1977, que minha agência de propaganda, quase vizinha, resolveu fazer sua festa ali.
 
Quando cheguei, os festejos já estavam em andamento, e o pessoal em grande alegria. Steinheger e chope fluíam adoidados. O diretor de atendimento, apesar de diabético, já estava “mamado”. Só felicidade. E a festa estava só começando. Quando saiu de lá, depois de tomar muitas, nem conseguiu achar o local onde havia deixado o carro.
 
Não sei bem porquê, toda essa festa fixa acabou. Logo depois da má notícia, tapumes anunciavam a construção de mais um lançamento imobiliário. Mais um espigão em Moema, levando às alturas seus andares e preços já hiper valorizados.
 
Faz tempo que não tomo um bom chope. Quando tomar, preciso lembrar-me de fazê-lo em memória da querida choperia.