A estação Piraquara do bonde dividia o açougue para um lado da linha e a padaria do outro. Aliás, havia duas padarias. Uma mais com cara de boteco de pinga, escura, e a outra clara, onde se comprava pão, leite, chocolate.
Ali no Campo Belo vivíamos como se estivéssemos longe da cidade. Meus vizinhos, alemães, que venderam nossa casa para meus pais, criavam galinhas, tinham pequenos pomares, um enorme caquizeiro, horta, videiras e até uma linda garagem que ficava trancada, onde produziam vinhos em enormes galões de vidro com serpentinas que saiam de um para chegar a outro. Quando um cavalo que puxava alguma carroça deixava as fezes na rua, lá ia Oma recolher, para fazer esterco para suas pequenas cultivadas.
Ainda que estivéssemos quase ao lado do Aeroporto de Congonhas, poucos aviões sobrevoavam o céu. À noite, o assobio do guarda noturno rondando em sua bicicleta. As ruas, nem todas asfaltadas, não eram lugar para minhas irmãs e eu. Ficávamos no quinta, onde havia um corredor de roseiras, um gramado onde havia uma tampa de poço, que usávamos como palco para brincar de artistas.
O certo é que, um dia, o bonde, lá da estação Piraquara, que ficava em frente ao consultório de meu pai, na sobreloja da padaria, ia acabar. Vestimos-nos com roupas de festa e fomos dar “tchauzinho” para o carro do bonde que passaria pela última vez antes que os trilhos da futura Avenida Vereador José Diniz fossem arrancados trazendo a metrópole para aquelas bandas.
Aproveitei minhas lembranças para pesquisar dados históricos e qual não descubro que a linha Santo Amaro, que começava lá no Largo de Santo Amaro e terminava no Ibirapuera, foi desativada em março de 1968, apenas dez dias após meu aniversário. Para falar a verdade, do bonde mesmo, lembro que era aberto, e que ele se foi. Lembro-me mesmo da linha do bonde, com seus pedregulhos recobrindo a terra ao lado dos trilhos. Lembro-me do açougue lá do outro lado, que já era quase Brooklin. Tudo parecia tão grande e tão longe, mesmo que fosse do outro lado da rua.
Deste tempo, também trago a doce memória do domingo, quando meu pai comprava revistinhas. Bolinha, Luluzinha e Pimentinha povoavam meu imaginário infantil. O banco do seu…. O nome não me volta, mas a expressão do jornaleiro, de cara limpa, barba feita… Já sei, Raimundo. Era o único dia da semana que me lembro de meu pai comprar o jornal. E acho que era a Folha de S. Paulo, pois gostava da Folhinha, do jogo de sete erros e dos “ligue os pontos”. Mas bom mesmo era aquela hora que meu pai sentava no sofá, me colocava entre suas pernas e fazia as vozes de todas as personagens.
Pimentinha era o que ele mais gostava. Moleque travesso, traquinas, terrível. Ele rolava de rir com as respostas do menino para seu pai, seu Jorge, o vizinho. Acho que gostava mais da leitura que nós. Mas depois de muitos anos, veio-me esta deliciosa sensação de meu pai pertinho, leve, tranquilo, risonho.