Um rabiscador metido à memorialista tem de, por força de suas afinidades literárias, utilizar totalmente suas memórias, sejam elas gustativas, olfativas, sensitivas, ou quaisquer outras que possam existir.
Foi com base nessa minha a assertiva que eu me apeguei para escrever este texto.
Explico: outro dia, passeando com minha esposa e meu enteado por um shopping, minhas narinas (enormes como podem afirmar todos os que me conhecem pessoalmente) foram assaltadas por um aroma “sui-generis”.
Imediatamente veio à minha memória a imagem de um pequeno saquinho de papel celofane, repleto de amendoins cobertos com chocolate e ainda quentinhos. Eram os tão desejados “praliné”.
A memória continuou buscando e em seguida trouxe a imagem de um carrinho de pipoca adaptado para fazer essa maravilhosa guloseima. Este carrinho tão ardorosamente relembrado ficava estacionado na Avenida Celso Garcia, quase na esquina com a Rua Bresser, e ao lado das portas da antiga “Lojas Pirani”.
Lembrei-me que às quintas-feiras, quando nos dirigíamos (eu minha mãe e meu irmão) para a semanal visita ao meu avô, descíamos do ônibus 5 Estações e seguíamos até a Rua 21 de Abril, no famoso “pé dois”, então tinha a oportunidade de ganhar um saquinho dessa delícia e dividi-la equitativamente com meu irmão.
A memória olfativa é bastante clara para mim, e está, sempre, instigando minhas glândulas salivares, ora com o oloroso perfume do amendoim praliné, ora com o inesquecível cheirinho das castanhas de caju vendidas nas Lojas Sears do Paraíso, ou ainda o perfume do churrasquinho grego da Praça da Sé.
É por isso que eu me convenço, cada vez mais, que ser velho é bom, mas velho com memória ativa é muito melhor.