Perda de memória – Parte II – com (in)satisfações (derradeira)

Dia 30 de abril, quarta-feira, 16h, véspera de 1º de maio, fim de semana prolongado, foi agendado o exame… Vocês podem imaginar o trânsito nesse dia. Trocamos ideias, eu e a Myrte.
 
– Carro? Nem que o Corinthians perca na inauguração do Itaquerão (“pô”, to vendo a cara do João Felix, depois da bronca que ele deu, em um outro texto).
– De ônibus? Talvez.
– De táxi? Isso, de táxi, ele vai pela faixa do ônibus… Aprovado.
– Não dá também de táxi. Com a nova disposição do prefeito, mesmo com passageiro, o táxi não pode transitar pela faixa do ônibus, dentro de determinado horário, que era o meu.
 
Então restou… Restou… Restou, o metrô!
 
Antes, preciso dar uma ideia do trajeto que faço para chegar ao hospital: saio de casa, Av. Antonio de Souza Noschese, 719, Pq. Continental, pego a Corifeu de Azevedo Marques, no início (final) vou até o final dela (início), entro na Vital Brasil até a Eusébio Matoso e em seguida Rebouças, até a Paulista. Antes dela, entro na Al. Santos, até o hospital “Total Cor”. Acho que deu para entender, não é? Se não, Google…
 
Tenho certa experiência com o metrô, senti seus efeitos quando iniciaram as obras, na década de 60 (morava ainda na Rua do Gasômetro), acabando com o Pq. Dom Pedro II que virou canteiro de obras, pondo fim a minha área de lazer. Já era hora de deixar meu Braz, em 1969, me “pirulitei” para onde estou hoje.
 
Nos últimos anos, sempre cuidando de minha neta, Paola, 22 anos, estudante de Direito, arrumou um emprego em um escritório de advocacia, na Rua XV de Novembro (“old center”), centrão velho de São Paulo e, para ela ir de carro, tem os mesmos problemas que citei, ela vai de metrô, tomando o trem na estação Presidente Altino, que se localiza no fim da avenida onde eu moro. E quem a leva até a estação…?
 
Quando deixo a Paola na estação, ela sobe dois lances de escadas respeitáveis que, em uma ocasião, tentei e cheguei em cima com a língua de fora; essa parte é que não me atraia muito a opção pelo metrô.
 
Mesmo assim, decidimos pelo metrô. Via pela TV os “modernos” vagões importados da Espanha, queria conhecê-los de perto. Minha filha Maria nos levou até a estação. Pensei bem na Myrte, ela está fraca e calculei que ela não aguentaria. Ela me encorajou:
– “Vamos Mo, eu vou aguentar, vou devagar”. 
 
Desejando ter ao meu lado um balão de oxigênio, chegamos lá em cima. Acabou nosso cansaço, fiquei pensando que o Capasso tinha um pouco de razão, porque só as estações dos “bairros nobres” têm escadas rolantes ou elevadores… Quando o casal de segurança nos recebeu perto das borboletas, permitindo nossa passagem, nos indagou: “Porque os dois vieram pelas escadas?” Quase caí de costas…
 
No momento em que a simpática senhora perguntou sobre as escadas, respondi: 
“- O que existe além das escadas para subir até aqui”?
– “O elevador, aí atrás das escadas – disse sorrindo a segurança…” 
 
Se a Myrtes não estivesse comigo, daria um beijo no rosto daquela senhora. Retive meus ímpetos, porém, em seguida, lembrei-me da minha idade… “- onde vai, leão” – me cobrou o imodesto Modesto nº 2 – “otanta due anni, farabuto” (oitenta e dois anos, malandro), será que você não se enxerga?
 
Bem, não vou pegar mais uma vertente, discutindo com o M-2. Tenho meus deveres com os leitores.
 
Não acreditei, fui ver se tinha o elevador… Sempre vi minha neta subir as escadas, nunca a vi ir atrás da escadaria para pegar o ascensor. Perguntei o porquê, ela disse que gosta de se exercitar de manhã, não usa nem escada rolante, por isso.
 
“- Ma, “porca miséria”, você podia me prevenir, não é?” 
– “Ah”, vô, não me lembrei, pensei que o senhor sabia… Me perdoa.
 
Primeiro encanto. Entramos no trem, que maravilha, a primeira reação foi da Myrte: 
– Você lembra quando entramos naquele lixo do metrô de Nova Iorque? 
– Você falou: que maravilha, estamos em baixo da terra, e o de Paris? Te assaltaram em 400 dólares e fizeram nós pagarmos multa por ter viajado em vagão de “Mutilet de guerre” (mutilados de guerra), e o…
– Chega! Esse é o melhor vagão que já entrei… Que limpeza, que odor, que gente simples e educada (naquela hora, 14hs). 
 
Não estava lotado, conforme fomos entrando os lugares reservados aos idosos já estavam livres. De acordo com a orientação da segurança, para irmos a Al. Santos (paralela a Paulista) devemos descer em Pinheiros e depois tomar o trem que vai para Paulista e em seguida da Paulista tomar o que vai até esquina da Brigadeiro Luís Antônio.
 
Chegando à estação Pinheiros, só ouvia Myrte encantada exclamar: coisa linda as estações, Mo, olha, aqui tem também esteira rolante, que só vimos em… 
– Fale baixo, senão vão pensar que a gente quer se mostrar… – a interrompi. 
 
Nas poucas estações que paramos, Presidente Altino, Pinheiros, Paulista, só surpresas e das boas. Trens seguros, confortáveis, silenciosos… Mas o que mais me chamou a atenção foram, além da segurança, as pessoas dentro dos vagões. Quando fizemos o pequeno percurso da Paulista\ Rebouças foi uma luta para fugir das ofertas de poltronas reservadas. Desde o primeiro momento, falamos com um rapaz, negro, bem alto (uns dois metros) aonde iríamos e ele não deixou por menos, deu todas as explicações cabíveis, acompanhou-nos nas estações e só se despediu na penúltima parada. Como se fosse uma disputa de corrida com bastão, ele, o Diego (já sabia seu nome), deixou o trem e logo uma moça simpática nos acompanhou até a saída que dava para a Brigadeiro. Como bom paulistano nascido no Braz, já estava meio desconfiado. Mas não, eram realmente pessoas desinteressadas, apenas preocupadas em ajudar o próximo, principalmente quando o próximo está com idade de “bebê”.
 
Na Paulista, entramos na Brigadeiro e o hospital fica logo virando a esquina com a Al. Santos. Por incrível que possa parecer, uma senhora emparelhou-se conosco e disse ter ouvido pela minha mulher que iríamos ao Hospital Total Cor. Confirmei e ela disse que trabalhava lá e que iria nos ajudar chegar. Vocês acreditam? Eu não…
 
Fiz o exame, chato para “chuchu”, deitado, peito nu, médica de um lado, enfermeira do outro, me enchendo de “chupetinhas” por todo o tórax, a médica pedindo para eu ficar um pouco de lado, olhando para ela, apertando o estetoscópio para ouvir melhor as batidas e olhando o computador, lendo em voz alta para um outro médico que estava ao lado dela, passando os dados e fazendo pequenos comentários a “sota vocci” (baixinho), a meu respeito. 
 
Olhei o médico e notei que ele estava quase dormindo e como se tratava de mim resolvi avisar a médica. 
– Olha, ele está dormindo… – ela sorriu 
– Ele é assim mesmo, não liga… 
– Não liga? É, sou eu o examinado, se ele escrever alguma coisa errada “babau”. 
 
O médico falou alguma coisa e percebi que era estrangeiro. Porto-riquenho? Cubano? Sei lá… Cardiologista, podia ser técnico do Palmeiras…
 
A volta para casa foi menos divertida, menos emocionante, bem mais cara, tudo para satisfazer a vontade de minha querida esposa Myrte. Disse estar cansada, queria voltar sentada em uma poltrona de táxi. Ela tem razão, foi muito estafante a jornada.
 
– Myrte, implorei, são 6h da tarde, vamos pegar a Paulista, Rebouças, Marginal, na hora do “rush”… 
 
Conversando, saindo do hospital, para um táxi na porta do hospital para deixar passageiro e a Myrte disse: 
– Vamos aproveitar esse… Não preciso me alongar, levamos quase três horas para chegar em casa, gastei R$ 70.