José Lopomo: doutor em motores

Esse era meu irmão. Um cara que nasceu para mexer com engenhocas. Gostava de um barulho. A começar de criança com aquele barulho de mãe xingando por causa da sujeira.
Tudo começou quando eu e ele queríamos comprar uma bicicleta. Então combinamos de guardar as moedas que ganhávamos de gorjeta das vizinhas quando elas mandavam a gente ir à venda. A cada vez que isso acontecia, elas davam o troco como gorjeta. Era deis tostões daqui, duzentos réis de lá. Às vezes trezentos reis de outra. Tinha até quinhentão que às vezes espirrava para nosso bolso. O que mais gostávamos de ganhar era a pataca de quatrocentos reis (o famoso quatrocentão). Quando chovia com aqueles pingos largos, (chuva de verão) a gente dizia que estava chovendo patacas. Quem mais mandava a gente na venda era a dona Laura. O troco dela era sempre minguado, pois o dinheiro que ela dava quase era o valor da mercadoria. Um dia ela me mandou na venda de Cabeça de Porco e, em vez de me dar o troco em dinheiro, me deu linha 24, para empinar quadrado.
Fiquei fulo. Pensei vou fazer uma mutreta na próxima vez para recuperar a grana que não veio hoje. Já nos meus dez anos de idade tinha umas coisas boas na cabeça para inventar. Logo depois dona Laura me mandou comprar Anil. Em se tratando de anil, tinha que ser da marca Colmman, o melhor de todos, pois alvejava e muito bem as roupas. Também minha mãe mandava comprar sempre este anil. Para ter um lucrinho melhor fora à gorjeta que na certa não mais seria linha de empinar quadrado, comprei um anil de outra marca, mais barato como se o preço fosse o mesmo. Embolsei a diferença.
Dona Laura ficou com a pulga atrás da orelha e foi perguntar a minha mãe se o preço daquele anil era o mesmo que o Colmman. Claro que não, dona Laura. O Colmman é bem mais caro. Tudo bem, obrigado. Ficou quieta como se nada tivesse acontecido, pois sabia ela que eu tomaria uma surra bem grande.
Veio falar para eu devolver a quantia que eu tinha ficado. Mas como eu já tinha guardado no cofrinho não quis devolver.
Ela disse que ia falar com minha mãe, e eu disse a ela que ia falar pro meu pai que a ouvi falar mal dele.
Ai ela estancou e deixou pra lá. Na verdade eu não a ouvi falar nada, mas como ela deixou quieto, é de se prever que estava com o rabo sujo. Dona Laura gostava muito de mim, porque eu era bastante esperto.
O resultado do jogo do bicho saia às 14 horas, e as 14h10 ela já estava com a papeleta do resultado na mão que eu ia buscar no chalé da rua Joaquim Floriano, aquela velha puxada de saco. Tanto ela como sua filha Irene e seu genro Osvaldo achavam que eu estava à frente do meu tempo.
A gente não pensava em andar na fatiota, nem para ir a missa para economizar aquele dinheirinho. Por isso quando minha mãe falava em comprar uma roupa ou sapato, a gente preferia ficar com a que tinha e andar de tamanco em vez de sapato ou alpargatas roda.
Eu e meu irmão já tínhamos quase todo o dinheiro para comprar a bicicleta, e minha mãe completou o que faltava. Enfim a bicicleta estava comprada.
No dia seguinte fui à escola pela manhã e não via a hora de chegar o meio dia, para dar uma volta nela. Quando cheguei vi a bicicleta toda desmontada, porcas e parafusos, e um monte de peças jogadas ao chão, a roda traseira sem a catraca, a corrente jogada num canto do quintal, o guidão desmontado, o garfo já todos raspado para uma nova pintura. Minha mãe xingava devido a grande sujeira de graxa espalhada pelo chão. E falava assustada:
– Filho será que vai conseguir repor essas peças novamente como estava? Afinal você nunca tinha visto uma bicicleta na vida!
Não demorou muito a bicicleta estava novamente montada, com nova pintura pneus novos e faixa branca. Até hoje, passado 56 anos, não consigo entender como ele decorou tudo direito para a reposição de todas aquelas peças.
Mais tarde meu pai comprou uma bicicleta meia corrida inglesa. Aro cromado, eu ia trabalhar com ela no meu primeiro emprego. Era uma bicicleta que todo mundo arregalava os olhos em vê-la. Em seguida comprou uma Philips, pneu balão, que era para eu ir trabalhar, pois era perigoso eu ir com a inglesa e ser roubado.
Mas não demorou muito veio a polícia em casa. Era um domingo e meu pai ao atender os policiais ficou sabendo que o Julio que vendeu a magrela, tinha roubado de alguém no Jardim Europa. Falei para os policiais:
– Puxa é a bicicleta que eu vou trabalhar, que pena.
O policial pegou meu pai pelo braço e disse:
– Seu Ângelo fica com a bicicleta, falo para o “majorengo” que não achamos. Na certa ele queria levar uma propina.
Meu pai disse a ele:
– Olha, leva esta coisa embora. Na minha casa, coisa roubada não entra.
Aí tive que ir trabalhar com a inglesa mesmo. Naquele tempo as bicicletas tinham placas como os carros. Todo ano meu pai ia à prefeitura pagar a taxa de emplacamento.
Em 1958 quando da chegada dos campeões mundiais de futebol na Suécia estavam desembarcando no aeroporto de congonhas pelo avião da Panair, lá estava eu com minha bicicleta, com duas bandeirinhas do Brasil na rodas dianteiras, apertada com borboletas em vez de porcas. Ela estava estacionada no pátio do aeroporto.
Estava tão vidrado na descida dos jogadores, que nem vi que alguém tinha roubado aquela jóia de bicicleta. Voltei a pé para o Brooklin. Levei uns cascudos do meu pai, e a inglesa nunca mais apareceu.
De repente meu irmão trocou a mania de bicicleta, para motocicleta. Uma coisa horrorosa foi adquirida por ele. De repente a moto estava também desmanchada. O guidão já não era o original. Colocou um guidão curtinho. Pára-lama também curto. Uma placa oval em sentido vertical, com o numero oito. Uma autêntica moto de corrida. Estava ele já se preparando para alguns rachas. Só restava saber se ela ia andar. Não demorou muito ele era o único cara do Brooklin Novo com uma motocicleta de escapamento aberto fazendo um barulhão pelas ruas Cação, Texas, Kansas, Marquês de Cascais e Arandú. E enchendo o saco da dona Iésse em frente a casa dela, porque ela era muito chata. Quando o ano de 1958 chegou, a Itália mandou para o Brasil suas Lambretas. Era uma febre de lambretas por toda a cidade. Ai, meu irmão foi ser mecânico de Lambretas.
A primeira oficina de Lambretas que ele trabalhou, foi da avenida Brigadeiro Luiz Antonio, quase esquina com a Rua Guárara.
Não demorou muito já tinha sua oficina, que durante muitos anos arrumou a Lambreta de muita gente. Sua Lambreta era toda cromada, inclusive as peças do motor. Seu nome passou a ser o Zé da Lambreta. Fora os habitues proprietários de Lambreta, tinham os portugueses padeiros que entregavam pão com uma enorme caixa de madeira no lugar do baolete (uma mala onde se carregava ferramentas).
Quando 1970 chegou, as Lambretas começaram a diminuir no gosto do povo. Então ele partiu para a mecânica de automóveis.
Seu primeiro emprego foi com seu Otávio, sogro do seu cunhado. A oficina era na Rua Carlos Sampaio. Seu Otavio sabia tudo de mecânica de carros. Então o Zé da lambreta tinha um ótimo professor. Em pouco tempo ele não ficou nada a dever a seu Otávio, que um dia me disse que meu irmão parecia que tinha nascido para mexer com a mecânica, tamanha a facilidade que tinha para assimilar. Em 1974, Jose tinha sua oficina de mecânica de carros. Não demorou muito para ter uma enorme freguesia. Quem levava o carro para ele nunca mais levaria em outro mecânico, tamanha a confiança que tinham nele. Quando começou a computação para regulagem de motores, ele continuou a fazer regulagem na base do ouvido. E que ouvido tinha.
E como regulava bem os motores. Poucos mecânicos conseguiam regular motor de fusca que nem ele. Havia um segredo que ele não contava para ninguém. Carburador e todo aquele amontoado de peças minúsculas era com ele mesmo. E o segredo ele contou só para mim. Todos os outros mecânicos que regulavam motores não prestavam atenção para um detalhe na base do carburador, e que ele detectou. Aquela base era feita de Hamônia, um metal que envergava com a caloria do motor. Então aquele vão, era a válvula de escape, por onde a regulagem não dava certo. Ele limava a base por onde escapava o ar, dando a pressão necessária para o bom funcionamento do motor. Na verdade ele sabia fazer tudo o que um carro precisava. Alem do motor, fazia eletricidade, pintava. Era um eclético no ramo.
Sua oficina era um antro de piadas, e mais tarde ele resolveu fazer aquilo que gostava de fazer desde criança. Tocar cavaquinho. Desde 1958 ele tinha um, que ficou guardado por muitos anos. Estava tocando muito bem, era seu passa tempo para refrescar a cabeça.
Foi amigo de Evandro, que era o chefe do conjunto dos Chorões. Participava com Evandro do clube dos chorões de Pinheiros, na praça Benedito Calixto. Gostava de tocar as músicas de Waldir Azevedo. Brasileirinho era o seu hino musical. Até a esposa de Waldir o conheceu, depois deu seu marido morreu, no início dos anos 1980.
Não deixem o chorinho morrer disse ela, para José e Evandro, certa vez.
Na loja de instrumentos musicais, da Avenida Duque de Caxias, onde ele comprava cordas, dava uma palhinha, e recebeu o apelido de Zé do Cavaquinho.
Quando alguém não sabia quem era o Zé mecânico, era só dizer que era o Zé do Cavaquinho, que todos já sabiam de quem se tratava.
Aos 50 anos começou a se sentir doente. Foi ao médico que diagnosticou a doença de Chagas.
– Você é do interior? – Perguntou o médico.
– Não. Sou paulistano nascido no bairro do Itaim, disse ele.
– Teve alguma transfusão de sangue na sua vida?
– Tive sim doutor. Foi em 1949, numa operação da garganta que fiz no hospital São Luiz.
– Então foi daí que você contraiu a doença de Chagas, na certa foi sangue contaminado, disse o médico. O veneno do bicho Barbeiro fica encubado por todos esses anos e se manifesta quando a pessoa esta por perto dos 50 anos.
Parece que o mundo desabou para Zé mecânico, ou melhor, para Zé do Cavaquinho.
Aos poucos foi definhando. Continuava fumando. Se bem que não tragava, mas gostava de ficar com o cigarro aceso e a fumaça ia entrando pelas narinas atacando também o pulmão.
Não se tratou direito. Tinha a mania de dizer que os médicos não sabiam nada. Ele sempre foi forte. Mas quando não conseguia mais erguer a porta de sua oficina, ficou em casa coçando o saco, como gostava de dizer. E os fregueses aborrecidos porque o médico de seus carros estava doente.
No dia primeiro de maio quando Ayrton Senna morreu, meu irmão disse que ele também não tardaria em ir.
Estava ele jogando a toalha. Parece que se cansou da vida. Olhou bem para mim e disse:
– Mario, eu não vou ver a copa do mundo deste ano.
E no dia 2 de Junho de 1994, uma quinta feira de Corpus Christi, ao meio dia, José Lopomo morreu aos 53 anos de idade, no Hospital Dante Passaneze.

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