(parte I)
Em homenagem ao Dia das Mães que ocorreu dia 13/5, ou seja último domingo vou contar a história de uma mãe fantástica: a minha.
O nome dela era Maria de Lourdes, chamavam-na de Lourdes e com o passar dos anos D.Lourdes. Todos os que a conheciam achavam que ela era o protótipo de uma pessoa feliz, imaginem a figura: baixinha, gordinha, cabelo bem liso e grisalho, a mil por hora e sempre com um sorriso estampado no rosto. Porém, quem a conhecia melhor sabia que por traz daquele sorriso se escondia uma mulher sofrida e uma grande tristeza.
Ela nasceu no bairro de Santana, mais precisamente na R.Olavo Egídio,
com dois anos mudou-se para a Rua Silva Bueno, no Ipiranga. Era a 3ª
de 6 irmãos, portanto, não tinha as regalias do caçula, nem a liberdade do mais velho, além de tudo sofria de violenta gagueira o que lhe causou vários aborrecimentos – até a gagueira ela venceu pois quando adulta não mais gaguejava. Faço aqui um parênteses para contar uma história que ocorreu com ela quando criança que seria cômica se não fosse uma fonte de tristeza para ela e que depois de adulta ela contava e se divertia: com 5 ou 6 anos ela diariamente, ia de trem, da estação do Ipiranga à estação do Pari, levar a marmita para o meu avô, certa feita quando foi comprar a passagem para voltar para casa ela pediu: Por favor, uma passagem para o Ipi, Ipi, Ipi, e vendedor de passagens gritou Hurra!, não é difícil de adivinhar o estrago no ego de uma criança.
Com 10 anos ela terminou o primário e foi trabalhar numa fábrica de meias, no Ipiranga, onde trabalhou até se aposentar. Embora ela tivesse estudado até o 4º ano, lia e escrevia muito bem, mercê do fato de ter sido sempre uma leitora voraz, lendo Monteiro Lobato, José de Alencar, Machado de Assis, livros de capa-e-espada dos Dumas, Pardeillan, enfim, ela fugia da miséria do seu dia-a-dia para as páginas dos livros, onde ela poderia ser uma princesa, uma fada, o que desejasse.
Por volta dos 20 anos ela casou-se com um primo, o Zeca, meu pai, e se
sua vida já era difícil piorou muito. Eram duas pessoas completamente
diferentes com uma única coisa em comum, ambos eram muito trabalhadores, só que o que minha mãe ganhava ia para o sustento da casa e o que meu pai ganhava ia para a jogatina, ele era um jogador compulsivo, enfim, a miséria da vida dela aumentou, sempre morando em cortiços, vilas, habitações coletivas, nunca sabendo se no final do dia ele voltaria para casa ou se fugiria pois dera um desfalque, armara um trambique, fugira de agiota para pagar dívidas de jogo.
Uns dois de casamento nascia o 1º filho, o Zequinha meu irmão mais velho, simultaneamente meu pai fugiu para o Rio de Janeiro. Quando meu irmão tinha uns dois anos ele teve uma pneumonia, agonizou e morreu, minha mãe registrou tudo num caderno, quem quiser saber o que é sofrimento de uma mãe, precisa ler esse caderno – eu o guardo até hoje, cumpri dizer que meu pai não veio para o enterro do filho.
(parte II)
Como eu dizia, meu pai não voltou para o enterro do filho. Após algum fracassado voltou e a minha mãe o aceitou de volta, depois da volta dele ela engravidou quatro vezes e em todas perdeu a criança, na quinta vez nasci eu, ou seja, sou filho único de uma mãe que engravidou seis vezes. E a nossa vida seguia miserável. Em 1950 ou 1951 meu pai sofreu um grave acidente quando se instalou um processo de osteomielite que o matou oito anos após. Se nossa vida era ruim, ficou pior, pois ele além de continuar jogando passou a ter despesas com a doença. Para ela, então, ficou muito pior, pois além de trabalhar, cuidar da casa, ir ao hospital uma ou duas vezes por semana ainda tinha que bancar a enfermeira quando ele estava em casa, sempre sofrendo xingamentos e até agressões, enfim nossa vida era um inferno.
Mas, como ela dizia, não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe, em 1958 ele morreu e a nossa vida começou a melhorar, eu já trabalhava desde os 11 anos e aos 14 consegui meu primeiro emprego com carteira assinada sendo que ainda me pagava os estudos. Gostaria de fazer um parênteses aqui para contar um fato que ocorreu quando eu tinha 5 anos. Todo dia minha mãe me levava para o Parque Infantil e ia para o trabalho; na hora do almoço retirava uma marmita no Círculo Operário do Ipiranga e ia para o Parque dividir comigo, inúmeras vezes eu, no meu egoísmo infantil, comia toda a marmita e ela voltava para o 2º turno do trabalho com a barriga vazia sem nunca reclamar ou pedir que eu deixasse um pouco para ela.
Voltando, em 1959 nossa vida começou a melhorar, eu continuei estudando e cheguei a fazer pós-graduação, fui melhorando financeiramente e em 1976 construí uma excelente casa próxima ao C.A.Indiano na represa de Guarapiranga, um lugar lindo.
Aproveitei e construí um apartamento completo, com entrada independente, com cozinha em fórmica azul como era o sonho dela, nesta altura ela estava aposentada há uns 5 anos cuidando de suas plantas e dos gatinhos abandonados que apareciam no quintal da casa dela. Com muito custo e usando o argumento dos netos, nesta altura meus 3 filhos já haviam nascido e eram a alegria dela, consegui convencê-la a morar conosco. Mas, tem pessoas que parecem que só nascem para sofrer, dia 4/1/1978, quinze dias antes da mudança ela teve um AVC, com 63 anos, que a deixou semi-paralítica e que em 4/8/1981 a levou. Naquela noite eu juro que vi uma estrela mais brilhante no céu e tenho certeza que lá havia um anjo baixinho, gordinho e risonho e que finalmente havia encontrado a felicidade.
Agora, que cada dia que passa mais se aproxima o nosso reencontro, tenho certeza que quando eu for para o outro lado ela estará me esperando para pavimentar meu caminho, como ela sempre fez do deste lado. Tem tanta coisa mais para contar sobre ela, mas as lágrimas não me deixam enxergar o teclado. Mãe, não passa um dia sem que eu pense na senhora. EU TE AMO MINHA MÃE!!!!!
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