Outro dia, exatamente igual a tantos outros, nada de novo, nada de diferente, rotina cansativa e desinteressante.
Assim pensava eu sentado, ou melhor, esparramado no sofá aqui na sala.
– Boa tarde!
Levanto a cabeça assustado, tinha certeza de que ninguém me fazia companhia. De onde aparecera aquela voz rouca e empostada?
No canto da sala, bem ao lado da TV, uma sombra foi se fazendo notar e ficando cada vez mais reconhecível. O que no primeiro instante parecera um borrão vermelho, agora, melhor delineado, se mostrava como o contorno de um imenso e balofo corpo. Dirijo meu olhar um pouco mais para cima e distingo um rosto rosado e bonachão escondido atrás de uma intensa e alva barba e imensos bigodes. Dois olhos azuis e iluminados, quase que escondidos na barra de um gorro vermelho, me olham e transmitem uma ternura jamais vista antes.
Feito o reconhecimento, ainda bastante emocionado com a surpresa, respondi ao cumprimento:
– Boa tarde, Papai Noel, quanta honra! A que devo tamanha gentileza?
– “Ho Ho Ho” – sorriu, fazendo o gesto característico de segurar a barriga com as duas mãos – ora, pois.
– Se você foi um dos meus representantes durante vários anos, por que não haveria eu de te fazer uma visita de cortesia e, juntos, lembrarmos antigas e pitorescas aventuras?
Refeito da surpreendente surpresa, agradeci a deferência e emendei ao agradecimento um novo comentário:
– Adoro lembrar de coisas passadas, principalmente daquelas que podem nos deixar alegres. Nem sei por que resolvi representá-lo em vários Natais.
– Não sabe? Então não percebeu nunca que tinhas o gene de Papai Noel em sua existência?
– Gene de Papai Noel? Que raio de gene é esse?
– Você herdou esse gene do Alfredo Chammas (seu pai) que, mesmo magrelo, me representava em todos os Natais da ACF-SP, distribuindo presentes em meu nome para todas as crianças. Lembrou agora?
– Lembrei sim; e lembrei também que um dia comentei com ele que, quando fosse maior, iria fazer a mesma coisa.
– Isso mesmo! Assim pensou e assim executou! Durante muitos anos. Começou com pequenas participações sem muita evidência, depois, atendendo a convites, foi Papai Noel do Clube Prada, do Rubro Negro da Bela Vista, depois, para alegrar as crianças, aceitava todo e qualquer convite.
Foi o Papai Noel oficial de todos os Natais das famílias Chammas, Santos Lima, e Avelino.
“Puxa” vida, é verdade! Quantas vezes eu vesti tua farda vermelha e fui me emocionar com aqueles olhinhos pedintes das criancinhas ávidas por um presentinho.
Nas festas da família, chegava ao romper das 12 badaladas, cumprimentava a todos, distribuía alguns presentes, buscava não ser reconhecido (como era difícil!). A criançada era “páreo duro” para ser convencida! Cada ano mais esperta. Que sufoco!
– Teve um ano que você, por problemas particulares, decidiu não ser meu representante e colocou seu filho no lugar.
Coitado, mesmo com toda a boa vontade apresentada ele não conseguiu um bom desempenho e abandonou a causa no fim da festa.
– Pois é, Papai Noel, e eu, mesmo querendo me afastar, ainda representei-o por alguns Natais.
– Hoje já não existe ninguém para fazer minha imagem se perpetrar. Para mim, ficou bem mais complicado e difícil.
– Vou confessar uma coisa, velho Noel, eu na verdade, sinto muita saudade daqueles dias de Papai Noel, ficaria muito feliz se pudesse voltar a representá-lo e acarinhar os corações infantis.
– É uma pena mesmo, mas você está participando de grupos de mais idade, não tem à sua volta crianças famintas por carinho e atenção… Em todo caso, fica o convite, se quiser voltar, é só buscar quem te queira e recomeçar a brincadeira…
– Eu ficaria muito feliz!
– E eu também, Santo Velhinho!
– Bem meu velho, missão cumprida! Visita realizada e lembranças reavivadas. Fiquei feliz e sei que também te fiz feliz. Até uma próxima vez.
– Feliz e Santo Natal!
– Amém Papai Noel, amém!
O vulto se desfez. Foi tão rápido seu sumiço que dos meus olhos rolaram lágrimas de inconformismo. Emoção à flor da pele, resolvi escrever esta crônica.
Quem sabe, qualquer hora dessas, eu a leia novamente e, em um surto de extrema coragem, volte a envergar certa roupa vermelha, jogue por sobre os ombros um saco cheio de pacotes e vá visitar antigas crianças que, hoje, já são jovens rapazes e moças.