Hoje, os 73 pedaços do quebra-cabeça de minha existência pesam um bocado e me fazem, na maioria das vezes, refém da minha indolência.
Foi em um dia em que essa indolência estava mais profícua que me pus a pensar e lembrar-me de coisas que fiz e já não faço mais (calem-se, varões desavergonhados que tentam maliciar essas minhas palavras).
Entre todas as coisas que me agradavam fazer, a mais constante em minha vida foi a dança de salão.
Fã de Fred Astaire e Gene Kelly, obtive deles a herança do vírus dançarino e, bem jovem ainda, comecei minhas investidas dançantes.
No princípio, os bailinhos promovidos por minha tia Zazá, ora em nossa casa, ora na casa de amigas, eram as oportunidades que eu tinha para acalentar minhas ambições dançantes e, ao som de Gregório Barrios, Fernando Albuerne, Trio Los Panchos, Tommy Dorsey, Glenn Miller e uma infinidade de astros e estrelas musicais, usando de uma simpatia marcante e bastante cultivada, dançava com todas as moças que surgiam à minha frente e me embevecia todo.
O tempo foi passando, a idade avançando e chegaram, então, os meus próprios bailinhos, promovidos ainda em minha casa e na casa de outros colegas. Eram “bailecos” abrilhantados por “pick-up y sus negritos”. A idade não me permitia ainda arroubos muito maiores.
Quando um pouco mais velho comecei a frequentar bailes vespertinos, ocorridos em salões de grande porte, tais como Clube Homs, Clube Transatlântico, Clube Alepo, Clube Pinheiros, Ed. Mauá, Aeroporto, Casa de Portugal, Clube Maison Suisse e tantos outros.
Esses bailes eram abrilhantados por orquestras e conjuntos de excelente qualidade e liderados por maestros fantásticos, tais como Osmar Milani, Orlando Ferri, Zezinho das TV, Sylvio Mazzuca, Luiz Arruda Paes, Severino Araujo, Osvaldo Lenhan.
Lógico, por causa dessa minha jornada, a minha qualidade de bailarino foi, cada vez mais, se aprimorando e me transformando em um destaque dos salões.
Chega então a hora da maioridade e me coube a descoberta do mundo noturno e da boemia.
Fui conhecer as melhores gafieiras de Sampa. Fui frequentador assíduo da maior delas, o Som de Cristal. Conheci e frequentei, também, o Cassino Vila Sofia, o Recreio das Carpas, o Clube Badaró, o Clube Independência, o Lilás e uma infinidade de boates e inferninhos. Conheci e dancei nas duas maiores casas de dança paulistanas, ou seja, os “Taxi Dancing Chuva” e “Avenida”.
Em todos eles, eu, além de dançar, brilhei e fui badalado.
Chegou, porém, a hora da calmaria (pelo menos eu assim pensava), namorei, casei e constitui família, sem, no entanto, me afastar da dança. Minha esposa, excelente dançarina, me acompanhava com maestria.
Inexoravelmente, tudo tem um fim e meu casamento também acabou. Pensei que era o meu fim também, mas não era. Depois de alguns anos de calmaria, vendo que o fim não chegara, voltei a ativa.
Dancei muito e dançando encontrei um novo amor. Dançamos por um bom tempo e só suspendemos essas atividades quando eu, já suportando o peso da idade, me vi obrigado a abdicar dos salões.
Hoje, aqui no meu ostracismo, lembro-me dos tempos áureos e revivo, com saudades, as minhas aventuras dançantes.