Enciclopédia madeirense viva? Senhor Manuel

Os que moram, trabalham ou passam pelas imediações da Casa de Portugal, Sito Avenida da Liberdade, 602, seguramente se impressionam pelas sinuosas linhas de sua bela fachada ou pelo aroma dos fartos pratos do restaurante O Marquês, ao térreo. Do que muitos são ignaros é que ao piso superior se encontra, com mais de 10 mil títulos, entre os quais raros exemplares da Revista Ultramarina e do Jornal cabo-verdiano Claridade, essencial nos processos de formação literária do irmão país bilíngue (lusófono e falante do crioulo ou kriól cabo-verdiano), a quarta maior biblioteca especializada em temas lusitanos fora de Portugal.

Certa feita, fui a consultar a obra Lendas da Ilha da Madeira, da autoria de José Viale Moutinho. Constatei com grande surpresa que já conhecia todas as lendas ali narradas e outras não referidas também.

Após dias a vasculhar meus "arquivos mnemônicos", atinei de donde provinha tal cabedal de informações folclóricas madeirenses.

Minha tia-avó morava à altura do 425 da Rua Abílio Soares, no que a posterior viria a ser o colégio Santo Inácio, hoje Inaci. Como outras casas da década de 30, do passado século, a morada guardava o ar senhorial de antanho, quando São Paulo ainda ostentava casas com gigantescos quintais, mais símiles a pequenas chácaras do que casas. Aliás, mencione-se de passagem que a palavra "quintal" provém de "quinta", por sua vez, casa urbana, que por disposições de D. Pedro II e Marechal Deodoro da Fonseca, não poderiam ultrapassar "uma quinta parte de uma chácara do meio rural".

Quem se responsabilizara por transformar o quintal de minha tia-avó em uma vera aleia verdejante? O senhor Manuel, um madeirense que, em sua simplicidade insular, dominava as complexas técnicas de cultivo em um terreno adverso.

Em seu sotaque inegavelmente funchalense, este senhor sempre narrava as lendas e aforismos madeirenses. Minha bisavó, em sua profunda observação da realidade, o denominava de "o daroês das flores".

Felizmente a sabedoria insular foi recolhida por Moutinho. Pena que ele não tenha conhecido o senhor Manuel: era uma enciclopédia viva da Ilha da Madeira.

Deixo uma reza que ele me ensinou. "Sempre que semear, deve-se entoar: em nome de Santo Amaro, que o que cá semeio não seja de fruto raro; em nome de Santo Antão, que seja bento este chão."

O falecido ator Abrahão Farc morou algum tempo em um kibutz israelense. Disse-me que antes das fainas agrícolas, o rabino sempre recitava um trecho do Sidur para que "Eretz fosse mabraká" (a terra fosse bendita).

Minha bisavó tinha razão: o senhor Manuel era um santo do plantio. Mais uma história, nesta São Paulo de tantas outras.