Na várzea do São Caetaninho, tributário da Represa Billings, em uma nesga de asfalto tendo ao lado a mata Atlântica salpicada de cores, principalmente amarelas, pois um ipê devastador, em pleno – e rápido – apogeu, dominava tudo, eu deslizava tendo ao lado meu filho, agora já adolescente. No rádio do carro as canções, Eleanor Rigby, deixando no ar aquela sensação de que o mundo é um bom lugar em qualquer lugar que se possa ouvir Eleanor Rigby e depois, dentro da minha concepção de que todas as músicas boas podem e devem estar anarquicamente misturadas, Carlos Galhardo deu início à Rapaziada do Brás, música linda que tem este trecho fantástico:
“Uma sombra envolta na penumbra, detrás da vidraça faz um gesto lânguido e cheio de graça, imagem de um passado que não volta mais”.
Disfarcei que era um cisco, coloquei os óculos escuros, evitei olhar para o meu filho, mas ele, quietinho, ao término da música, repetiu baixinho:
“uma sombra envolta na penumbra, isto é legal hein pai?”
Bonita deste jeito só “My Way”.
Aí eu não falei mais nada, só agradeci a Deus por este momento, por todos os momentos que passamos juntos, e acelerei. O asfalto se transformou em brita, o sol se pôs.
A lua (“dito diante da lua todo verso se afrouxa” – Eça de Queirós) surgiu no céu lá no alto, no mais alto, e eu, na penumbra do meu carro, agradeci também a Alberto Marino e Alberto Marino Jr., sem os quais não haveria Rapaziada do Brás e não haveria cá dentro de mim este momento único, quando reencontro em meu filho o mesmo Luizinho de outrora, louco por música, por teatro, por cinema e vejo que nossas emoções são tão iguais.