Eu nasci no bairro Água Funda e sou descendente de migrantes nordestinos. Meus pais chegaram aqui em 1947 e, como era costume, os parentes que chegavam primeiro eram acolhedores dos que chegavam com emprego e moradia.
Assim, era comum haver verdadeiras colônias nos bairros. Especificamente na Água Funda, havia os grupos de portugueses, italianos e baianos. Grupamentos com forte influência cultural e católica. Sendo a igreja, portanto, o local de encontro. Também o futebol, fazia a alegria da galera. Uma grande metalúrgica "Aliperti" cedeu um espaço para que o futebol rolasse nos finais de semana. Os jogadores eram, na maioria, os operários e quase todos eram parentes.
Surgiu então a ideia de se fazer um time de futebol entre parentes da família Reis e um jogo festivo todo dia 1º de janeiro. Isso ocorreu nas décadas de 60 e 70. Os parentes se reuniam e alguns que moravam em Santo André vinham para o evento. O jogo chamado "Família Reis Contra o Resto do Mundo" era muita alegria e futebol. Depois do jogo, o almoço era regado a muito forró e farofa. A minha infância foi marcada por essas lembranças.
Hoje, quase não se vê as famílias fortalecerem seus laços históricos e culturais. Há poucos espaços de convivência e os tempos modernos com tanta tecnologia colaboram para o isolamento das pessoas. Os terrenos dos "campinhos" abrigam condomínios. Futebol? Só se pagar quadra! Festas juninas? Empreendimentos financeiros… Religião? …e por aí vai.
Na década de 70, com a perda do campo de futebol, surgiu entre os filhos dos nordestinos e mineiros a ideia de fazer times de futebol de quadra. Surgiram dois times que ainda existem: "River" e o "Plazza". Seus fundadores ainda jogam, agora com os genros e netos. As esposas, agora vovós, sempre acompanham. Festa anual para o aniversário do time. Baile e uniforme para não perder a identidade… Saudade e amizade. Alegria permanece, a cidade cresce.
Não se mora mais perto, é preciso vir de carro, trânsito, trabalho, nem sempre dá para se encontrar, mas há esforço e quando se encontram…