Antes da Copa, Cyre já era hexacampeã: a Safire brasileira

À altura do 2049, da Rua Augusta, os que se abastecem de víveres e materiais de limpeza no Minimercado Extra desconhecem, em sua maioria, que o local merece ter sua história contada. Corriam as primícias da década de 60 do passado século, quando uma mocinha foi seis vezes campeã. Vindo à luz em Votuporanga, registrada sob o nome de Cyro, nossa futura heroína, paulistana por adoção, enfrentou e conquistou seis vitórias. Ainda adolescente, deu-se conta de que sua alma feminina se encarcerava em um corpo masculino. Sua primeira vitória: perceber que não era enferma ou pecadora, mas alguém que o fado lançara inelutavelmente à busca de uma redefinição sexual.

Abandonando família, estudos e, principalmente, seu passado de prantos e incertezas, Cyro veio a São Paulo com três coisas: uma maletinha com algumas roupas, sua coragem e o sonho de vencer na vida e mudar seu sexo. Sua segunda vitória: vencer o medo. Empregou-se como auxiliar de cabeleireira em um salão à Rua Dom José Gaspar, em uma galeria de lojas que hoje se tornou um templo para os amantes das relíquias de discos "compactos simples, duplos e Long-Plays". Todos os donos de bancas de jornais e revistas do Centro de São Paulo a conheciam, pois comprava todas as revistas de moda e comportamento para se atualizar sobre penteados e cortes. A dona do salão a auxiliou muito na carreira e Cyro a chamava de Manuela Antônia de Almeida, em referência ao ilustre escritor que auxiliou Machado de Assis a se lançar à carreira de literato.

Amealhando paulatinamente todas as gorjetas das clientes que atendia, Cyro logo passou a cabeleireira-chefe e passou a ser chamada de Cyre. Sua terceira vitória: aprender o ofício. Conseguiu comprar um salão à Rua Augusta, nos azos de Jovem Guarda e Programa Zás-Trás apresentado por Cidinha Campos, um ponto de encontro para a juventude paulistana, que pelos arredores flanava em busca de entretenimento e flertes.

Abriu o salão de beleza Safira's. Sua quarta vitória: colocar-se em um mercado competitivo, em um local que antanho contava com poucos salões de beleza. O nome do estabelecimento foi dado em referência à personagem protagonista do desenho animado "A Princesa e o Cavaleiro", Safire, uma princesa que se tinha de passar por príncipe para impedir que o trono se transmitisse a seu primo, Plástico, que seria um fantoche nas mãos do pai, o tio paterno de Safire, o cruento Grão-Duque Dur-Alumínio e seu inescrupuloso assecla, Nylon.

Sua quinta vitória: o salão permaneceu em funcionamento por mais de duas décadas, um dos mais longevos de São Paulo. Cyre conseguiu juntar o suficiente para ir ao Marrocos e submeter-se à cirurgia de redefinição sexual. Guardava o canhoto da passagem pela RAM (Royal Air Marroc), que atuou no espaço aéreo brasileiro por pouco tempo. Muitos ainda se recordam do bordão cantado "RAM, Royal Air Maroc", em um estilo árabe-andaluz.

Sua sexta vitória: foi a primeira “transgênero” a conseguir a alteração de seu nome de batismo, de Cyro para Cyre. Fechou o salão por três motivos: primeiro, com a abertura de uma comunidade evangélica, cujo nome omito para não ofender quem quer que seja, à cercania do salão, tanto ela quanto suas clientes passaram a ser vítimas de agressões verbais por parte dos frequentadores da igreja; segundo, porque as ofertas que lhe fizeram pelo local eram de cifras de vários "0"'s; terceiro e mais importante de tudo: Cyre chegou àquela idade em que a pessoa quer aproveitar seu tempo em atividades “não-laboriais”.

Antes da Copa, Cyre já era hexacampeã. Seis "Vivas" a Cyre e sua trajetória de dor, alienação e vitórias. Mais uma história nesta São Paulo de tantas.