Certa noite, vindo a pé do meu curso supletivo na Vila Maria Alta, resolvi tomar um táxi. Contei meus trocados e vi que ia dar para pagar. Parei e acenei para um, era um fusca branco. O carro parou, entrei, expliquei aonde ia e o motorista seguiu o caminho, entrou na Rua São Quirino, um lugar deserto na época, e, de repente, parou o carro e em segundos sentou no banco de trás ao meu lado, o rapaz foi tão rápido que nem acreditei, parou e já estava pertinho de mim.
Meu Deus, em meus pensamentos me vi morta e picada igual carne. Fiquei em estado de choque, mas em minha cabeça passava mil coisas. Começou a me elogiar, dizendo que eu era bonita, que gostou da minha voz. E eu pensei: vou fazer o mesmo. Também falei que a voz dele era linda, que ele devia ser muito trabalhador, porque trabalhando até uma hora daquelas, e levei a conversa para o lado da família. Com meu coração na mão e pedindo a Deus pela minha vida, não deixei transparecer em momento algum que eu estava com medo.
Comecei a falar que ele devia ser o orgulho da família, que a mãe dele era uma mãe muito feliz por ter um filho igual a ele. Ele tinha pegado em minha mão e aproveitei para dizer que ele tinha mão de trabalhador, além de serem bonitas. Pedi o endereço dele e falei que o tinha achado tão bacana que a gente podia até namorar, que ele podia ir à minha casa. E ele também não parava de falar e eu concordando com tudo e só enchendo ele de elogios. Cheguei a falar: vamos até minha casa agora.
Percebi que ele acreditou em tudo que falei, e passou para o banco do motorista e disse que ia prosseguir a corrida, só que eu dei endereços que nunca existiram e telefones que nem sei de quem era, naquele tempo não existia celular porque se ele fosse confirmar aí sim que eu estava morta.
Quando ele ligou o carro e saiu eu olhava de um lado e do outro para ver se tinha algum carro ao lado para ao menos fazer um leve sinal, mas nada, até que ele parou perto da minha casa, na Avenida Joaquina Ramalho, abri a porta muito rápido, mas sempre com um sorriso, falei que estava muito feliz de ter conhecido ele, mandei até beijos para a mãe dele e assim saí viva e inteira.
Quando desci do carro, tive uma crise de choro, não conseguia nem andar, mas deu para anotar a placa do carro em pensamento. Por sorte minha, vinha um camburão da polícia e parou do meu lado e era um grande amigo meu, muito rápido conversei passei os dados e pedi que se encontrasse apenas para saber se não era alguém acostumado a fazer maldade com pessoas. Agradeci muito a Deus, porque tenho certeza que sai viva, pela calma que demonstrei por fora.