Era por volta do meio-dia e eu estava na Avenida Rubem Berta esperando o ônibus. Naquela época, eu fazia tratamento no Hospital dos Servidores e, como morava na Penha, enfrentava uma verdadeira maratona para chegar até o hospital. Saía de casa de madrugada, pegava um ônibus até o Largo da Concórdia e ali tomava o ônibus Socorro, que me deixava pertinho do Servidor. Tinha por volta de 14 anos e ia sozinha, pois a mamãe trabalhava no Juizado de Menores e não tinha como me acompanhar.
Sabem como é hospital público: apesar da consulta marcada, tinha de esperar muito para ser atendida; acabava saindo de lá por volta do meio-dia. Voltemos ao ponto de ônibus. Eu não enxergava nada de longe e era um sufoco cada vez que tinha de pegar ônibus: sempre tinha de pedir ajuda a alguém que estivesse no ponto também. Nesse fatídico dia, estava eu com um monte de livros e cadernos pesando em meus braços (era tão demorada a consulta que sempre levava cadernos e livros para botar a lição em dia ou para estudar, aproveitando o tempo de espera).
Avistei um ônibus ao longe que, pela cor, parecia que era o meu. Virei para um rapaz no ponto e perguntei se aquele ônibus que estava chegando era o que eu estava esperando (não lembro o nome). O rapaz virou para mim e, sem perceber que eu era uma estudante, disse: "Desculpe, dona, mas eu também não sei ler!". Fiquei com tanta vergonha, mas tanta vergonha, que entrei no ônibus sem saber para onde ele iria! Uma vez lá dentro, perguntei para o cobrador e, por sorte, era o que eu estava esperando.
Como já devem ter percebido pelos meus relatos anteriores, passei por alguns momentos bem constrangedores na minha adolescência.