A rotina em casa no início dos anos 60 era dormir cedo para acordar também cedo para ir à escola. Depois do jantar, ficávamos acompanhando os pais na sala assistindo a pequena programação exibida na TV daqueles tempos. Não havia espaço para ficar muito tempo vendo a TV. Logo meu pai chamava os dois filhos maiores, na época o mano caçula era um bebê, e ficávamos conversando sobre assuntos do dia a dia, até que pedíamos insistentemente para que ele contasse uma história. Meu pai sempre foi muito presente na família, mas não tinha essa habilidade em contar histórias. Mas o que tinha de sobra era jogo de cintura, presença de espírito como se dizia, e isso talvez fosse sua arma secreta como homem de negócios. Era uma pessoa com muitos contatos e amizades, pois sua conversava cativava as pessoas em minutos.
Era um líder nato e autoritário, o típico ariano e não dava o braço a torcer ao revelar algo que não dominava bem. Então, inventou um estratagema que consistia em contar a história sem contá-la de fato. Então começava a função, "vou contar a história da baleia azul, zang, zam, zam" usando a onomatopeia, simulando uma música. Ficávamos com os olhos arregalados esperando o início e a história não vinha; ele ficava com a mão no queixo como se estivesse lembrando algo e dizia, "Ah, eu vou contar a história do burrinho amarelo, tararããã”.
Ele fazia isso diversas vezes trocando os bichos e as cores e substituindo os ruídos ao fim de cada título, e nós não perdíamos a esperança de que uma hora ou outra a história iria ser contada. Ledo engano! Em pouco tempo ele encerrava o assunto e dizia que já estava na hora de dormir, para acordar cedo. Depois de nos acostumarmos com o processo, também sugeríamos temas de histórias e entrávamos no jogo dele e na piada, que era enfim tudo aquilo.
Era um tal de cavalo verde, camelo roxo e dinossauro laranja, e só acabava quando o "chefe" mandava. Com a criatividade de meu pai não ficávamos frustrados e começamos a aprender o que hoje se diz do tal "jeitinho brasileiro." Acredito que o espírito empreendedor que sempre teve era fruto disso, embora tivesse estudado apenas até completar o ginásio. Ele foi um “quase-contador” de estórias, mas foi um pai integral excepcional. Nossa benção!