Anjo proativo

Há coisas em nossas vidas que acontecem do nada; parece que tinham que acontecer e pronto! E há outras que temos a impressão de que recebemos uma "mãozinha", muitas vezes sem sabermos como ou de onde.

Meus filhos frequentaram escolinha desde antes dos três meses de idade, pois a licença-maternidade era de 81 dias na época. Quando a Giovanna era bebezinha, começou a frequentar uma escolinha (que não era "inha", era grande!) na Avenida Pacaembu, bem próximo à Praça Charles Miller, ao Estádio. Chamava-se Escola Pindorama e devido a seu tamanho tinha um bom número de funcionários, mas quero falar especificamente de um casal: o Tio Zé e sua esposa, a Tia Nice. Que gracinha de pessoas! Ele era o faz-tudo: zelador, porteiro, enfim, resolvia os problemas que surgiam no prédio e sua esposa era uma das tias que tomavam conta do berçário. Moravam lá, mas tinham o sonho de voltar para a Bahia.

Na época, eu trabalhava na Pirelli, nos Campos Elíseos, e o Igor era gerente de um banco, na Lapa. Geralmente tínhamos de utilizar os serviços de "hotelzinho" da escola, pois íamos pegar nossa filhota muito mais tarde do que os outros pais, o que acabava com a gente! Dependendo do horário em que o meu marido conseguia sair da agência, ele pegava antes a mim ou à Gio.

Vocês se lembram que ali no Pacaembu, antes da construção do Piscinão, alagava tudo e nem precisava ser chuva muito forte, não? Pois certa vez, o Igor se atrasou mais do que de costume para me pegar e quando estávamos na metade do caminho o tempo começou a dar sinais de que viria temporal e dos grandes! Eu ainda comentei com ele que deveríamos torcer para conseguirmos chegar à escola antes e assim, eu me sentiria mais segura.

Sempre tive medo de temporal (só quando estou na estrada ou no trânsito) e o meu marido sempre riu (e ri) de mim por isso. Ao chegarmos, ele estacionou o carro e entramos rapidamente, deixando as preocupações lá fora. Ele (o temporal) veio e com força total, com tudo o que tinha direito: chuva fortíssima, raios, trovões e relâmpagos mil! Durou um bom tempo e quando achamos que já havia diminuído bem, resolvemos ir embora. O que encontramos encheu-nos de surpresa, gratidão e emoção: o nosso carro estava amarrado com duas grossas correntes, flutuando sobre a água que ainda não havia ido embora. O Tio Zé, conhecendo a região e muito atencioso, sem nada nos dizer (talvez para não nos preocupar), fez todo o trabalho sozinho: amarrou o carro ao poste e à coluna do portão. Não era sua obrigação zelar pelo nosso patrimônio, mas o fez pela sua bondade e consideração. Se ele não tivesse sido proativo, teríamos perdido nosso carro, com certeza! A força das águas o teria levado ou jogado contra um muro.

São pessoas que encontramos na vida que parece que foram colocadas para nos ajudar no momento oportuno, aquelas pessoas a quem chamamos de "anjos". Após um ano ou dois desse episódio, a escola foi vendida e transferimos a Gio para outra escola, que tinha como proprietária uma psicóloga maravilhosa, a Fátima, ex-sócia da Pindorama. Com a vida corrida de jornada dupla, dois filhos pequenos e etc. a gente deixa a vida passar e não percebe que ela está levando com ela essas pessoas maravilhosas com quem tivemos o privilégio de conviver, mesmo em curtos momentos, mas suficientes para demonstrarem sua grandeza e solidariedade! Nunca mais soube deles (talvez tenham voltado para a Bahia, seu estado natal). Hoje, ouvindo a chuva forte que caía de madrugada, essa cena veio à minha mente e achei que seria justo homenageá-los.