Duas vezes japonês, duas vezes paulistano

Deixo aos teólogos a celeuma se há a sina, ou se esta é feita por nós ou por Deus. O caso é que esta história com "h" estava emprazada para ser narrada. Aguardei que o senhor Iamanoi Koichiro fosse ter com seus antepassados no Tengoku – céu – para contá-la. Abril de 1946. O país passava por um período difícil, após o término da contenda mundial, ao lado dos Aliados. O senhor Iamanoi Koichiro, então um púbere de 12 anos, sabia que seu pai, Issei – primeira geração de imigrantes – era dos que não criam na derrota do Império do País do Sol Nascente e se filiara à organização Shindô-Renmei, nascida em Marília, mas que conquistara adeptos por vários municípios paulistas, todos irmanados pela crença de que o Japão vencera a II Guerra.

O pai do senhor Iamanoi incendiara diversos galpões de "uragirimono" – traidores – isto é, de japoneses que acreditavam na derrota do país asiático. Isto é mostrado no filme "Corações Sujos". O pai foi preso e, juntamente com a família, deportado do país. O senhor Iamanoi trabalhou na reconstrução do país dos pais, porém, em seu leito de morte, o pai lhe pediu que voltasse ao Burajiru – Brasil – e refizesse sua vida aqui, para saldar a dívida do pai, por seus atos contra a colônia japonesa que acreditava na derrota do Japão.

Iamanoi Koichiro voltou ao Brasil e fundou, com o primo, senhor Iamanoi Ichimatsu, o primeiro restaurante japonês do município de Miracatu. A colônia Nikkei do município é quase toda originária de Tupã, e foi nesta cidade que o pai perpetrou os atos de sabotagem. Vendeu-o e veio a São Paulo, cidade em que passara sua infância e jamais olvidara. Seu restaurante é hoje um dos melhores de culinária vegetariana e macrobiótica miracatuense, o Graal. Abriu uma "franchising" de temakeria em Pinheiros. Certo dia, fomos jantar lá, eu e colegas do curso de japonês da F.F.L.C.U.S.P.

Foi quando o conheci e ele me narrou sua história. Pediu-me que só a narrasse após seu falecimento: descendentes das pessoas cujas propriedades o pai deliu poderiam criar problemas a seus familiares. Duas vezes paulistano: quando nasceu e quando voltou para cá. Duas vezes japonês: por sua origem e por ter voltado ao Império do Sol Nascente com o pai shindô-renmei-sha (adepto da Shindô-Renmei).

Seguramente estará tomando chá verde no Tengoku. Espero que seja melhor do que o que provei na sua temakeria em Pinheiros: terrível! Sobre a Shindô-Renmei leia-se o livro "Shindô-Renmei: Terrorismo e Repressão" de Rogério Dezem, editora da Imprensa Oficial. Sobre a colônia Nikkei em Miracatu, há um texto de Lia Correa Pinto, pesquisadora do CNPq, à disposição para baixar pela internet. Entrem em contato com ela pelo endereço eletrônico: [email protected].

Ôku no monogatari no San Pauro ni, môhitotsu no monogatari desu (mais uma história nesta São Paulo de tantas).