Câmara Municipal da Cidade de São Paulo. 01 de Março de 2007.
Acomodada nas confortáveis poltronas do Salão Nobre, a multidão se surpreende agradavelmente quando o benemérito cidadão paulistano, momentos antes agraciado com a Medalha Anchieta mais o Diploma de Gratidão de SP e foco das atenções daquela noite, senta-se numa bateria junto com seus antigos colegas de um conjunto musical de 40 anos atrás. O quarteto toca ao vivo grandes sucessos instrumentais do passado: “Sleepwalk”, “Apache”, “The Rise & Fall of Fingle Bunt”, “Misirlou” e “Pipeline”, temas que soam nostálgicos aos ouvidos de hoje, arrancando efusivos e sinceros aplausos da platéia.
Cidadão paulistano… Tony Nogueira. Conjunto… Os Lunáticos (Mindão, Tuca e Maurício).
Dentre os inúmeros grupos brasileiros de música instrumental que floresceram na primeira metade dos anos 1960, OS LUNÁTICOS destacou-se efetivamente na formação básica – guitarra solo, guitarra base, baixo e bateria – típica dos ingleses The Shadows e dos norte-americanos The Ventures, cujas gravações inspiravam a garotada a adquirir instrumentos e arriscar uma carreira musical.
Embora nunca tivesse disco próprio editado, OS LUNÁTICOS alcançaram enorme repercussão em bailes, TV e shows ao vivo, graças à musicalidade e sinceridade nos arranjos. Isso tudo sem contar seus programas radiofônicos e sucessos fonográficos no playback de artistas famosos.
São Paulo -1962
Os garotos Maurício e Carlos Eduardo, o Tuca, amigos no bairro da Liberdade, entusiasmavam-se ouvindo dois discos 78 rpm dos Ventures e os recém-editados álbuns de vinil (Lps) dos brasileiros The Jet Blacks e The Jordans. Maurício já havia estudado piano, mas adorava dedilhar temas populares no violão embora não apreciasse tocar uma nota por vez, e sim acompanhar, com acordes cheios, alguém que cantarolasse ou tocasse também algum instrumento. Tuca, por seu lado, já se mostrava um dedicado solista de violão, procurando executar fielmente qualquer música que gostasse.
Após meses de exaustivos “ensaios” os dois se encorajavam para tocar, frente às garotas e amigos, “Blue Moon” e outros instrumentais. Aqui no Brasil, já se salientavam conjuntos trazendo o “The” antes do nome…The Jet Blacks, The Jordans, The Clevers, The Rebels, The Bells que inspiravam ainda mais a garotada a tentar tocar seus sucessos “Stick Shift”, “Blue Star”, “El Relicário”, “Amapola” e outros.
No ano seguinte, aprendendo a executar algumas faixas dos Lps dos Ventures disponíveis no mercado nacional, a dupla Tuca/Maurício já alegrava seus colegas do Colégio Paulistano na rua Taguá (hoje FMU) e perceberam que era hora de estarem com guitarras elétricas ao invés dos surrados violões.
Maurício relembra:
-“Embora não fôssemos mais vizinhos, o Tuca e eu continuávamos nos encontrando no colégio e sonhando com guitarras elétricas. Ele, inclusive, queria se ver livre de uma geringonça que inventou – um pedaço de madeira, em forma de “L”, encaixado na base das cordas do violão, numa tentativa de funcionar como a alavanca (tremolo) das famosas guitarras Fender que ilustravam as capas dos discos dos Ventures (!?). Naquela época, adquirir uma guitarra elétrica, mesmo as fabricadas aqui, era algo completamente diferente dos dias de hoje. Isso sem falar no contrabaixo, amplificadores e bateria. Atualmente a garotada tem inúmeras lojas e modelos à disposição além dos preços módicos”.
Os pais puseram as mãos nos bolsos. Maurício foi o primeiro a ganhar uma guitarra Del Vecchio preta e branca com alavanca e um modesto amplificador Alex, vindos diretamente da fábrica na rua Aurora. No início de 1964, Tuca também já estava com uma Gianinni Sonic vermelha e um “amplizinho” Ipame, adquiridos na Lojas Isnard da rua 24 de Maio. Nada de importações.
-“O segundo passo seria montarmos um conjunto”. Tuca recorda com saudade. -”E convidei dois amigos do Tênis Clube da Aclimação, o violonista Paulinho Cotrin e o baterista Esmar. Escolhemos até o nome do quarteto: The Intruders, em homenagem a uma faixa do Lp dos Ventures”.
Após uns ensaios nas dependências próprio clube, os Intruders fizeram seu primeiro show – 26.01.64- a festa de aniversário do saudoso Paulo Marengo, um amigo e incentivador que deixara o bairro da Liberdade para residir no Ipiranga. Uma data inesquecível ainda mais porque se encontravam por lá alguns bailarinos do famoso grupo Lancaster da TV.
Maurício comenta o fato:
-“O mundo dá muitas voltas. Na época eu nunca poderia imaginar que a Cláudia, uma das bailarinas do grupo Lancaster fosse se casar com o Aladdin, líder dos famosos Jordans e que ele próprio, décadas depois, viesse pessoalmente me convidar para participar dos shows e gravações do seu histórico conjunto”.
Mas logo em seguida o violonista Paulinho Cotrin se incompatibilizou com o esquema e deixou os Intruders, justamente porque os rapazes necessitavam mesmo era de um contrabaixista.
Maurício e Tuca não desanimaram. Pelo contrário, entusiasmaram-se mais ainda quando nos feriados do Carnaval na baixada atraíram uma verdadeira multidão para ouvir apenas os dois tocarem rock num salão de festas de um condomínio na praia do José Menino em Santos.
De volta à capital, os ensaios do trio continuavam na garagem da casa do Tuca, um sobrado na rua Heliotropos, Mirandópolis, na Vila Mariana, causando grande afluência de vizinhos, amigos e… bicões querendo uma vaga no conjunto.
Outro dia um garoto bem nutrido surgiu dizendo que era contrabaixista. O robusto personagem, apelidado Mindão, nem possuía um contrabaixo, mas se “virava” com uma velha guitarra Gianinni com 4 cordas grossas, uns abafadores de feltro e outro inevitável amplificardorzinho Ipame.
Mindão veio munido com discos raros dos Shadows e dos String- A-Longs. Foi logo aceito. Enriqueceu o repertório e o quarteto passou a chamar-se The Mooners (por causa do vocal feminino dos Ventures – The Moonstones) com a formação definida: Tuca (guitarra solo), Mauricio (guitarra base), Mindão (baixo) e Esmar (bateria).
Em uma quente noite de sábado, em Março de 1964, os quatro congestionavam a rua Tamandaré na Aclimação .
-”Era um daqueles bailinhos em casa de família, outro aniversário de uma amiga”. Maurício conta .- “Lembro que ela se chamava Delma e até a primeira música que tocamos- “Venus” no arranjo dos Ventures. A rua ficou tomada de gente porque o som saía pela janela. Naqueles dias, um conjunto tocando ao vivo em uma festa particular era uma tremenda novidade”.
A turma do Colégio Paulistano continuava “cercando” a dupla Maurício e Tuca nos intervalos das aulas. Eles eram os “heróis” da escola. Alguns até alcunhavam Maurício de “Zé Ventures”.
Mas era também os dias da bossa–nova e da música italiana. E havia outro estudante por lá que tinha uma reluzente guitarra Sonic/Gianninni azul e um moderno e mais “potente” amplificador. João Lali era seu nome e a turma adorava ouvi-lo tocar “Garota de Ipanema” etc. Não demorou muito para Lali fazer parte dos Mooners. Afinal o Mindão adquirira um baixo Del Vecchio e o Lali não negava emprestar seu amplificador. Mesmo que pudesse estourar os alto-falantes. Além do mais, o recém-chegado sabia bossa-nova, iria arranjar novas festas para tocarem e residia numa mansão no bairro do Aeroporto, ótimo local para os ensaios nas tardes de sábado.
Um mês depois, com os contatos do João Lali, os cinco “mooners” abafavam na festa do Colégio Feminino BVM no bairro do Brooklin. Na semana seguinte, além da guitarra, Maurício sentava ao piano para as bossa-nova e temas como ”Last Night” e a novidade “Let’s Go” de Floyd Cramer, animando vigorosamente um baile no Clube Escandinavo. No outro sábado estavam dividindo as honras com o ótimo e badalado conjunto de Arpege na Cidade Universitária.
E não paravam por aí. Em Maio estavam em um Clube de Campo em São Bernardo e em outra noite de sábado, com Dinho, um amigo baterista em substituição ao Esmar, tocavam no aniversário de uma debutante na refinada Maison Suisse.
Os rapazes dos Mooners estavam na exuberância da adolescência, mantinham ótima aparência, estudantes exemplares, típicos “príncipes encantados” das meninas e além de já serem considerados um “acontecimento” entre a juventude da zona sul, viam suas precisas e fiéis interpretações surpreenderem até os adultos. Foi assim que surgiu a idéia para tocar nos antigos saguões dos Diários Associados na rua 7 de Abril. Em Junho de 1964, dois meses após a revolução que abalou o país, persistia o clima nacionalista e o assunto principal era o movimento “Ouro para o Bem do Brasil” onde os patriotas depositavam suas alianças, anéis etc. para os cofres públicos. Tudo isso sob os olhares atentos das câmeras da televisão, uma providencial vitrine para artistas exporem seu talento.
E lá foram os rapazes numa excelente interpretação de “In the Mood” associada ao agradável visual de “garotos respeitáveis”, o que chamou de imediato a atenção dos grandes da televisão, notadamente do apresentador Julio Rosemberg que comandava dois musicais, um na TV Cultura que operava no mesmo edifício Assis Chateaubriand da 7 de Abril e outro mais famoso na TV Tupi, transmitido nas manhãs de domingo diretamente do seu auditório na esquina da rua da Consolação com a avenida Paulista (hoje Cine Belas-Artes).
Os Mooners foram contratados para ambos os programas e permaneceram ininterruptamente por 5 meses naquele auditório, levando exclusivamente temas instrumentais para os telespectadores. Naquele tempo os cantores ainda não se utilizavam de play-backs pré-gravados para simplesmente dublarem suas gravações e foi assim que os nomes que surgiam nessa era pré-Jovem Guarda, como Roberto Carlos, Jerry Adriani, Ed Wilson, Wanderley Cardoso, os saudosos Wilson Miranda e Tommy Staden (depois Terry Winter), e outros tantos, disputavam horários nos ensaios para serem acompanhados pelos recém-chegados garotos “boa-pinta”. Afinal os cantores sabiam que os Mooners caprichavam no “back” como se estivessem tocando suas próprias músicas.
O prenúncio de dias agitados talvez tenha feito com que o baterista Esmar entendesse deixar o grupo, sendo prontamente substituído pelo Dinho embora os rapazes estivessem de olho em Sergio Nogueira, do bairro de Pinheiros.
“- Posso até quebrar o galho mas prefiro tocar outras modalidades”, Sergio respondeu ao convite dos Mooners. ”Vou revezando com seu baterista e acho que meu irmãozinho Toni se encaixa melhor no perfil de vocês.”
E o louro Toni já tocou em uma das manhãs no programa de Júlio Rosemberg.
Tuca relembra:
-”Na verdade, nesse intervalo tivemos mais bateristas, como um tal de Niltão e um outro, Reginato. Entretanto, o Sergio, irmão do Toni, foi um dos melhores que já havíamos tocado e só não permaneceu no time porque era mais velho e tinha outro grupo de jazz e bossa-nova. O mais interessante foi que nesses dias sentimos a falta de um verdadeiro amplificador de contra-baixo. E era caríssimo na época. Até então o Mindão estava estourando o ampli do Lali. Tivemos a idéia de promovermos um bailinho na mansão do Lali e com a venda dos convites daríamos uma entrada no mesmo. E foi assim que tivemos nosso som incrivelmente melhorado com aquele novo Super Sonic da Giannini. Quem pedia o ampli. do Lali emprestado agora era eu, embora não tenha demorado muito para meu pai e o do Maurício bancarem os nossos Super Sonic também.”
O alegre Toni efetivou-se na bateria e as apresentações do quinteto nos clubes da cidade e na televisão ficaram cada vez mais incrementadas com o novo equipamento. O popular apresentador Ademar Dutra, com sua grande audiência nas noites de sábado na TV Excelsior do antigo canal 9, tendo os famosos The Rebels (com o ótimo Nenê no contrabaixo) como grupo fixo, recebeu os afinados Mooners no início de Novembro de 1964, para tocarem “Beyond the Reef” ao lado de uma sensual coreografia de bailarinas havaianas, causando um furor no auditório da rua Nestor Pestana (hoje Teatro Cultura Artística). Na semana seguinte, como não poderia deixar de acontecer, o convite e show na TV Paulista (hoje TV Globo), o canal 5 na rua das Palmeiras.
Um marco na vida dos Mooners foi que nesse final de 1964 iniciaram um duradouro relacionamento para apresentações ininterruptas nas tardes de sábado no Clube Transatlântico e nas noites de domingo nos clubes Pinheiros e Banespa, até que, em Março de 1965 receberam um convite que viria influir decisivamente na sua história.
A toda poderosa Rádio Tupi tinha nas suas tardes de segunda a sexta, o “Esquema Novo”, um programa para a juventude comandado por Atílio Riccó (hoje renomado diretor de novelas) e a ainda não atriz, Débora Duarte, com música ao vivo dos Lions, outro ótimo grupo instrumental da época. Atílio vira os Mooners na televisão (o grupo já estava em vários programas da Tupi) e correu para trazê-los na rádio.
-”Foi um honroso e irrecusável convite embora eu tenha relutado um pouco”, relembra o baixista Mindão. ”- Afinal eu trabalhava de dia no escritório do meu irmão mais velho e estudava à noite, além do que o Lali não quis aceitar mesmo. Mas acabei cedendo e fomos os quatro, Tuca, Maurício, Toni e eu para o rádio”.
Tarde de 18 de Março de 1965. Estúdios da Rádio Tupi no Sumaré. Débora Duarte alcunhando o baterista Toni de Mosquito Elétrico. The Mooners tocando “Chatanooga Choo Choo” ao vivo. Ao final da execução, os ouvidos atentos do radialista Hélio Ribeiro e do então diretor musical da emissora, maestro Erlon Chaves (já falecidos), captaram a musicalidade e o inesperado carisma dos rapazes.
Hélio Ribeiro se manifestou no ar: -“Estou deveras impressionado com esses meninos e quero sugerir aqui no microfone para que traduzam seu nome. Daqui por diante, por que não OS LUNÁTICOS? ”
Quem iria contrariar a opinião de figura tão ilustre da mídia. Na tarde seguinte, no mesmo programa, lá estavam OS LUNÁTICOS tocando ”Trevo de Quatro Folhas”, “Granada” e outros instrumentais.
Os rapazes foram contratados e João Lali deixou definitivamente o grupo. Nas semanas seguintes o programa era também transmitido ao vivo, diretamente do saguão de escolas, quando então a produção reunia grandes nomes da música jovem como Rosemary, Adilson Ramos, Vanderléia, Dick Danello, Erasmo Carlos, os irmãos Albert e Meire Pavão. Quem fazendo todo o acompanhamento? OS LUNÁTICOS!
Em Maio de 1965, o Ypê, outro requintado clube da zona sul acertava com o grupo para uma temporada embora outra grande marca no conjunto acontecia nesta época: convidados para um solo nos dois mais badalados e disputados programas noturnos da TV Tupi.
Mindão relembra:
-”Em um deles a produção determinou que tocássemos o ‘Trevo’ deitados no chão ou sobre os sofás. Foi muito engraçado, mas no ‘Mobile’, dirigido pelo enérgico Fernando Faro, as câmeras utilizaram o efeito caleidoscópio. Uma novidade na época. Inclusive tivemos a oportunidade de se apresentar ao lado de Wilson Simonal e César Camargo Mariano. Simonal era o nome do momento e insistiu bastante para que o acompanhássemos em ‘Trouble’, um rock de Elvis, seu ídolo.”
Daí para o sucesso também fora de São Paulo foi direto. O programa radiofônico do Atílio e Débora com artistas das novelas do canal 4 de TV, líderes de audiência, saía em caravana para outras cidades. Os LUNÁTICOS tornaram-se a maior atração na F.A.C.I.L., a grandiosa Feira Anual em Limeira, uma espécie de Festa do Peão de Barretos de hoje, além de shows nos palcos de cinemas no interior de Minas Gerais, cidades alcançadas pelos poderosos transmissores da TV Tupi.
O cantor Albert Pavão, na época o “Elvis Brasileiro” e um dos destaques da programação relembra:
–“Estávamos nos preparando nos camarins do cinema de Varginha quando um camarada adentrou e já foi perguntando quem era o ‘chefe da troupe’. Não sei por que mas me indignei naquele momento e respondi que ali não havia nenhum índio para existir um chefe. O cara era uma autoridade local e veio polícia e coisas mais. O Atílio conseguiu amainar a situação.”
Em Julho de 1965 OS LUNÁTICOS adentravam nos estúdios da Chantecler para gravar duas versões de Elvis com Albert mas dois meses depois os enérgicos pais do Toni obrigavam-no a desistir do grupo musical e se dedicar mais aos estudos.
O sardento baterista foi imediatamente substituído por Luciano, antigo músico dos Jockers, ótimo grupo de Santo Amaro.
Maurício continua relembrando:
-”Sentimos demais a saída do Toni. Sua vivacidade e relacionamento dificilmente seriam esquecidos. O Luciano era ótimo mas já estávamos “namorando” o Adias, baterista dos The Hits e dos The Fenders, que por sua vez também torcia para tocar conosco. O cara era bom demais e os contatos foram mantidos em um tremendo show de grupos de rock instrumental que aconteceu no auditório do jornal Folha da Manhã, com o Toni ainda nos LUNÁTICOS. O Adias juntou-se a nós em Outubro de 1965.”
Realmente o novo baterista Romualdo Calcagnetta, o Adias, chegou para incrementar ainda mais a musicalidade do quarteto. Seus solos em “Granada” tornaram-se número obrigatório em quaisquer apresentações.
O grupo deixou a TV Tupi mas em Janeiro de 1966, enfiados em trajes à rigor para tocar o clássico “Sabre Dance”, receberam o troféu MELHOR GRUPO INSTRUMENTAL, oferecido pela Revista do Rock no popular programa da Bibi Ferreira na TV Excelsior. Em seguida correram à Chantecler para mais gravações com Albert e depois à RGE com sua irmã Meire Pavão, ocasião em que foi gravada “Família Buscapé”, um tremendo sucesso de vendas.
A Jovem Guarda e grupos tipo beatles imperaram de vez naquele novo ano. E OS LUNÁTICOS viram-se na obrigação de apresentar alguns vocais principalmente nos bailes em clubes de outras cidades. Convidaram o Walter Collucci, da turma do bairro da Liberdade para cantar sucessos nacionais e o Antonio Carlos Custódio, guitarrista apresentado pelo Mindão e ótimo intérprete dos Beatles. A entrada dos dois novos integrantes levou a badalada revista Intervalo a publicar uma página inteira com os novos LUNÁTICOS, matéria seguida com um show dos rapazes no templo da música, o Urso Branco da Av.Sto.Amaro.
O baterista Adias conta:
-”Aparecer na Intervalo e tocar naquela mega-casa de espetáculos, uma espécie de Credit Music Hall hoje, era tudo que um músico almejava. Foi um sucesso. E olhem que tivemos de disputar os aplausos com os ótimos Versáteis, efetivos da casa, o conjunto cover da Tijuana Brass. Eles tinham o trompetista Ronaldo Lark que vinha se destacando na mídia como o Herb Alpert brasileiro.”
Uma vez contratados pela TV Excelsior, OS LUNÁTICOS apresentavam-se semanalmente no auditório da rua Nestor Pestana mas apenas como o original quarteto instrumental, até que, após tocarem no luxuoso reveillon do Clube Transatlântico, o baixista Mindão resolvia parar de vez.
Maurício relembra:
-”Eu já vinha pressentindo o fim do conjunto nos últimos dias de 1966. E não era apenas pela saída do “velho” Mindão, amigo de tantas jornadas e estórias. Inclusive foi imediatamente substituído pelo Liminha, um dos maiores músicos que o Brasil já teve. É que percebíamos a dificuldade em manter a música instrumental naqueles dias. E eu gostava de tocar assim. Além disso eu fora aprovado no vestibular de Odontologia e iria ficar todo o ano de 1967 fora da capital, fato que desencorajava nossa continuação. Não demorou muito e o Adias iniciou um “caso” com os Versáteis e o Tuca carregou o Liminha para os Baobás, outro grupo de rock que estourava por aqui acompanhando Ronnie Von e um nome que começava a despontar… Caetano Veloso.”
E foi o que aconteceu. O sexteto continuou se apresentando unicamente nos finais de semana, quando Maurício retornava à capital. Inclusive até aconteceu um fato que não se levou tanto em conta na época mas muito bem lembrado por um antigo câmeraman da TV Bandeirantes:
-“O programa ‘Se Essa Rua Fosse Minha’, apresentado pelo imortal Vicente Leporace, enfocou na tarde do sábado, 25 de Maio de 1967, a conhecida rua São Joaquim no bairro da Liberdade com seus moradores e personagens pitorescos. A produção criou um quadro no qual os Lunáticos tocaram “The Rise and Fall of Fingle Bunt” (que depois veio a ser tema da rádio Difusora e da Rede Globo) ao vivo sobre o telhado de um velho sobrado, provocando uma agitação formidável na esquina com a rua Taguá, congestionando o trânsito etc. Dois anos após, os Beatles tiveram essa original idéia com Let It Be!”
Em 23 de Setembro de 1967, na cidade de Conchal, interior de São Paulo, no mesmo clube onde há dois anos vinham enlouquecendo a juventude local e com o Toni de volta na bateria apenas para esta noite especial, os LUNÁTICOS tocavam pela última vez antes de quase 40 anos. Encerrava-se mais um capítulo na História do Rock Instrumental no Brasil.
OS LUNÁTICOS deixaram muitas lembranças. Foi um perfeito grupo instrumental e de back-ground. Segundo experts e colecionadores, existem muitas gravações espalhadas por aí uma vez que participaram de inúmeras sessões não oficiais.
Hoje, o Tuca, ou melhor, o dr. Carlos Eduardo Aun, renomado cirurgião dentista, mantém seu luxuoso consultório nos Jardins e leciona em várias faculdades além de continuar tocando com grupos de rock.
Arnolpho Lima Filho, o Liminha, esteve com os Mutantes, Gilberto Gil e além de reconhecido mundialmente como um dos maiores produtores fonográficos com Ray Charles e outros grandes nomes, chegou a vice-presidência da Sony do Brasil. Atualmente divide residência entre o Rio de Janeiro e Los Angeles.
Antonio Armindo Ferreira de Castro, o Mindão, é um bem sucedido e tranqüilo comerciante no litoral sul de SP.
Toni Nogueira circula pelo mundo todo produzindo cenas para documentários. Continua na bateria com seu trio de jazz e é o Diretor Presidente da DGT Filmes em São Paulo. Detentor da Medalha Anchieta como “Cidadão de São Paulo” quando na solenidade de entrega reuniu os antigos Lunáticos para tocarem ao vivo no Salão Nobre da Câmara Municipal..
Maurício Camargo Brito deixou a Odontologia, escreveu o best-seller “Elvis”, tocou no American Graffiti e na Blues Band Five e é o pianista Morris Britt dos CDs O Boogie do Milênio e Cry Piano. Dedica-se à palestras sobre as origens do blues, jazz e rock na Torres Jazz Band. Continua gravando e tocando com The Jordans e deixou sua marca como guitarrista do LP/CD The Jet Black’s Remember the Shadows & the Ventures, um grande campeão de vendas.
Carlos Custódio está em uma multinacional na capital e Walter Collucci reside em Mogi Guaçú, interior de SP.
Romualdo Calcagnetta, o Adias, faleceu no início de 2005.