Uma coisa que o bairro do Itaim Bibi não tinha muito era indústria. Que eu me lembre fora a fábrica de chocolates, Kopenhagem, tinha a indústria de móveis Artesanal, que ficava na rua Arnaldo (Urussui), próximo à rua do Porto(Leopoldo Couto de Magalhães Junior). Além dessas duas indústrias, tinha também pequenas e médias empresas. Na rua Iaiá tinha a Paubra, (Pau Brasil Ltda). Penso que poucas pessoas se lembram dela. Sua frente se dava em frente minha casa devido a um terreno Baldio. No lugar da Paubra veio depois a fábrica de televisores Windsor (apenas Montagem). Pois era uma indústria Inglesa. Tinha também a Carpintaria Fontes, Rua da Ponte em frente à travessa do mesmo nome. A indústria de adesivos Adesite na rua Joaquim Floriano. Para completar as que me lembro tinha a serralheria Andrade, na rua Tapera (Bandeira Paulista) que se mudou para Avenida Bandeirantes. A fábrica de móveis Artesanal foi meu primeiro emprego. Para lá fui levado pelas mãos de meu pai ao seu Orlando sub-gerente, subordinado a seu Guido o “gerentão” da firma. Meu pai queria, por que queria que eu trabalhasse na tapeçaria, achava ele que era a profissão do futuro. Tinha várias seções. Marcenaria, Tapeçaria, Pintura, Lustração, Serraria e o local para ferragens, onde se fabricava as poltronas em ferro em formato de conchas recobertas em cordéis coloridos entrelaçados. Lá trabalhava homens já de uma idade que na média dava uns 30 anos. O mais velho era o chefe. Na época era chamado de Mestre. Seu Atílio Paladino. Depois vinha seu Luiz (Luizão), Luis borracha, cunhado do seu Orlando (tido como meio patso). Ballota um tremendo carne de pescoço. Aurélio, Joaquim, Chico, André e Noé, tidos como gente de alta respeitabilidade, não dados a uma brincadeira explícita. Riam quando não tinham alternativas. E isso era comum isso acontecer. Pois engraçadinhos tinham aos montes. Natal, Fininho e Macarrão eram jovens meio oficiais que gostavam de uma boa brincadeira, e assim até os mais sérios tinham que sair da compostura. Fininho era tão magro que não se podia ligar o ventilador, pois ele podia ser arrastado. Macarrão, já tinha esse apelido porque estava sempre com o nariz escorrendo. Aí vinham os moleques. Eu, o Melão, o Murruga (sinônimo de português) também conhecido como Galinha (seu pai vendia galinha na feira) e o filhote do Diabo. Era o Baltazar. Um crioulinho muito metido, o apelido se justificava, era tão feio, que assustava até gente grande. Tudo isso só na tapeçaria. Sem contar nas outras seções. A brincadeira mais comum era dar bastonadas na cabeça dos moleques, quem gostava de fazer isso era o Luis Borracha (apelido dado devido ser cachaceiro). Quem tomava mais bastonadas era o Melão. Isso porque tinha uma cabeça grande. Por isso o apelido de Melão. Mas o que chamava atenção era um jogo que consistia em embocar uma caixinha de fósforo nas caixas de ferramentas. Uma caixa ficava cinco metros de distância da outra. E cada um dos litigantes defendia uma caixa para não deixar o outro embocar. Tinha até torneio. Eu era o encarregado de vigiar a hora que seu Paladino chegava. E para disfarçar me davam um pedaço de madeira, serrote para fingir cortar, mas com o escopo de avisar a hora que ele estava chegando. Só que eu ficava vidrado na disputa e me distraia. Um dia quando percebi, seu Atílio estava bem perto e viu os caras jogando. Eram o Fininho e o Macarrão os mais fortes nesse jogo. Quando eu avisei era tarde o chefe já tinha visto. Ele entrou e olhou com cara de cínico para o Fininho e para o Macarrão. Os oficiais com uma tremenda vontade de rir, mas se segurando. Mas quando seu Atílio chegou até mim e disse que não prestava nem para avisar os amigos que ele estava chegando, o riso foi total. Aí não tinha seriedade nenhuma até os mal humorados crônicos riram a beça.
Risos mesmo era na hora do almoço. Entre a tapeçaria e a marcenaria tinha um pátio grande todo cimentado. Ali ficávamos todos sentados contando piadas ou mentiras. Um dia um rato quase do tamanho de um coelho cismou de aparecer bem no meio da “arena”. Foi Edmur quem primeiro enfrentou o ratão. O rato no meio do círculo de pessoas não sabia direito por onde ir levou um chute pro meio do fucinho que subiu quase dois metros. Quando caiu ao solo estava já tonto daí foi chute de todo lado caindo próximo a Florindo, que diziam ser bicha. Florindo ficou com dó do bichinho e exclamou: Nossa ele está com os olhinhos arregalados. Daí o bicho foi para o lixo. Outra coisa engraçada era o dia primeiro de Abril. Aquele dia de 1954, foi recheado de coisas engraçadas. Começou com o cafeteiro, que a turma chamava de cafetão.. Um Italiano que fazia café para todos de manhã e à tarde. Compraram um cocô de plástico, colocaram num jornal com um pouco de água como se fosse xixi. E ficaram esperando o Italiano chegar. Seu Nicola era daqueles caras ranhetas. Falava um monte de palavrões a maior parte em Italiano. Quando ele entrou no quartinho do café e deu de cara com aquele estrume a sua frente já saiu falando horrores indo direto a gerência e falou para seu Guido. O gerente foi pessoalmente ao local e se mostrou muito indignado. Logo imaginou quem poderia ter feito uma asneira daquela. Mandou chamar para sua sala eu, Melão, Luiz Borracha, Fininho e Macarrão. Foi quando Zé Lixador o chamou de lado e disse do que se tratava. Antes mandou ele dar um chutinho na peça. Seu Guido ria e balançando a cabeça entendeu a brincadeira do primeiro de abril. Mas mal sabia que algo estava reservado a ele também. Era ele, seu Guido, que dava o sinal de entrada hora de almoço e hora de ir embora. Para isso batia com uma barra de ferro num círculo de 40 cm de circunferência, também de ferro. Num momento em que ele saiu de sua mesa trocaram o círculo de ferro por um de madeira pintado da mesma cor do original. Quando o meio dia estava chegando todos estavam fora do lugar para ver a reação dele. Quando os ponteiros se juntaram ele pegou o bastão de ferro e com toda força bateu como de costume. Só “ele ouviu”. Seu Guido ficou vermelho, balançou a cabeça e depois riu quando viu que todo mundo estava à espreita olhando. Vocês não valem nada, dizia rindo com os demais.
O Mario Alimari era um que fazia todos rirem na hora do almoço. Ele trabalhava nas máquinas, era o responsável pela serra de fita. Só a cara dele já fazia todos rirem. Já naquela época ele estava trabalhando no rádio. Estava começando fazia parte das rádio novelas da rádio bandeirantes. Tinha um garoto muito atrevido que tirava uma com a cara dele todos os dias. Mario nem se importava apenas ria. Mas como Mario era bem mais velho que o garoto, dava constrangimento aos demais. Um dia disseram ao Mario dar um susto no garoto. Mario imitava e muito bem pessoas epiléticas. Então num dia na hora do almoço, quando Balthazar estava tirando um sarro com a cara dele, Mario se jogou ao chão, e começou a se estrebuchar, babava, virou o olho. Os demais sem rir, diziam ao garoto: Viu o que você fez? O cara tem esse problema e você mexe com ele, deu nisso. Quando o menino começou a chorar Mario se recompôs e o garoto pediu muitas desculpas. Nunca mais se atreveu a mexer com ele. Jogando futebol (era goleiro) Mário fazia suas estripulias, um dia defendeu uma bola começou a rolar no chão indo com a bola para dentro do gol. Mais tarde, Mario Alimari deixou a fábrica de móveis, virou artista de televisão. Passou a ser Pé com Pano, Pé sem Pano, que fez muito sucesso na extinta TV Excelsior. Mais tarde a fábrica de móveis Artesanal, ficou sendo a KNOR FORMA INTERNATIONAL, vendida como muitas outras indústrias, as multinacionais.
No início dos anos 1960, a firma se mudou para o Taboão, bem próximo a Avenida Francisco Morato. No ano de 1963, o ônibus fretado pela firma para levar e buscar os funcionários, lá pelas 18 horas, ia passando pela avenida Francisco Morato, perto da linha de transmissão da Ligth, foi abalroado por um caminhão com carregando laranjas que rasgou a lateral do ônibus, quem estava do lado da janela sofreu mais. Florindo teve uma ripa da carroçaria, que atravessou seu peito varando o coração. Zé lixador estava sentado, ao ver um colega mais velho do que ele respeitosamente cedeu seu lugar. Era seu Alfredo que morreu no lugar de Zé Lixador. Muitos feridos ficaram com seqüelas por muito tempo.