Não vou falar dos cinemas de Sampa nos anos dourados, porque muitos nesse site já o fizeram com muita competência. Vou falar de alguns fatos curiosos e da razão maior de existirem os cinemas, ou seja, os filmes. A Turma da Carneiro adorava cinema, isto é chover no molhado porque todo mundo gostava. No cine Comodoro (Avenida São João) fomos assistir "Isto é Cinerama", anunciado como "3-D sem óculos". Fenomenal o efeito tridimensional bem como o som estereofônico produzido pelos falantes colocados pelas quatro paredes da sala. No Cine Arlequim (Avenida Brigadeiro Luiz Antonio) assistimos a "No balanço das horas – Rock around the clock", com Bill Halley & His Comets, que teve o mérito de introduzir as bandas de rock americanas no Brasil. A rapaziada ficava doida com o som e quebrava as poltronas, exigindo sempre intervenção policial… um escândalo. No Cine Ouro (Largo do Paissandu) assistimos um filme polêmico, do diretor Louis Malle e com a atriz Jeanne Moureau. Proibido em vários países e condenado pela Igreja Católica: era considerado "pornográfico". Havia sessões especiais, na parte da tarde, para que senhoras e senhoritas mais "avançadas" pudessem assistir. Os moços ficavam na porta do cinema fazendo gracinhas para aquelas "devassas", "galinhas", etc… O filme "Les Amants" foi exibido no Cine Ouro em 1959… hoje qualquer novela das sete é mais "pornográfica"… sinal dos tempos. Um dos cinemas prediletos dos rapazes era o Cine Jussara (Rua Dom José de Barros), especialista em filmes franceses, considerados "ousados' na época, entre eles o famoso "E Deus criou a mulher" com Brigitte Bardot. Era conhecido como o "cinema dos taradinhos", só iam os homens, que, no final do filme saíam rapidamente, curvados para a frente, na tentativa de esconder a "vergonha" nas cuecas… Mulheres decentes jamais iam no Jussara. Em 5 de abril de 1954, a Turma da Carneiro foi ao Cine República (Praça da República), totalmente remodelado para exibir o "primeiro filme do mundo em Cinemascope", um sistema que exigia duas câmeras de projeção acopladas e uma tela enorme. Filas quilométricas se formavam e o efeito era realmente espetacular, não obstante o filme não ser dos melhores : "O Manto Sagrado – The Robe", com Richard Burton, Jean Simmons e Victor Mature. Finalmente, em 17 de dezembro de 1957, a Turma da carneiro teve o privilégio de ir ao Cine Olido (inaugurado dia 15), o primeiro cinema de Sampa a funcionar dentro de uma galeria (Galeria Olido), na esquina da São João com a Dom Josá de Barros. Era um cinema diferenciado: os ingressos eram numerados e vendidos antecipadamente, o interior do cinema era luxuoso, com poltronas largas, em couro legítimo, as cortinas do palco eram em legitimo veludo (não lembro se vermelho ou verde). Um locutor em "off" anunciava: "O Cine Olido agradece sua presença e lhes deseja um ótimo espetáculo"… As luzes apagavam-se lentamente enquanto um "gongo" soava 3 badaladas graves… Somente o palco ficava iluminado… As cortinas se abriam… E surgia uma orquestra (em outras vezes um pianista) tocando lindas músicas por 30 minutos… Um espetáculo que os espectadores apreciavam com alergia e muitos aplausos. Depois o filme… A película (filme) inaugural foi "Tarde demais para esquecer" (A love affair to remenber) com Cary Grant e Deborah Kerr, um lindo filme com uma linda música, que é hoje considerado um "clássico"… No fim, os espectadores aplaudiam… Tudo muito bonito mesmo…A Turma da Carneiro saiu feliz, muito feliz, do cinema e fomos na Salada Paulista (Avenida Ipiranga) comer aquele delicioso cone de batatas com uma fatia de tomate por cima, ladeada por 2 salsichas ou 2 lingüiças ou 1 salsicha e 1 lingüiça, tudo ao gosto do freguês… Quanta felicidade…<br><br>e-mail do autor: [email protected]